quinta-feira, 25 de maio de 2017

Eça & Outras

Évora cidade queirosiana

Conforme anteriormente anunciado e programado, nos passados dias 20 e 21 de maio a Confraria Queirosiana foi a Évora comemorar os 150 anos da passagem de Eça de Queirós por esta cidade entre o final de dezembro de 1866 e agosto de 1867, então um jovem de 21 anos recentemente formado pela Universidade de Coimbra contratado para dirigir o bissemanário Districto de Évora. Abundando já os estudos sobre as circunstâncias deste contrato e desta estadia do então jovem advogado que aí decidiu ser jornalista e escritor, têm ultimamente sido produzidos mais alguns textos que, não trazendo novidades, ajudam a refletir sobre esta importantíssima época do seu percurso e, talvez o que não seja somenos, afirmam Évora como uma cidade queirosiana de pleno direito e legítimo proveito. Sendo ela própria Património Cultural da Humanidade e o escritor poveiro militante de um Humanismo universal, continuam pois muito bem um para o outro e foi isso mesmo que a Confraria constatou.
Os participantes destas jornadas chegaram em dois grupos, o do Norte em autocarro desde o Solar Condes de Resende e o da Grande Lisboa em automóveis a partir de Lisboa, Sintra e Cascais, ficando todos alojados no hotel Vitória Stone que logo após a chegada, depois de um cosmopolita Porto tónico, lhes serviu um magnífico almoço alentejano.
Confrades queirosianos em frente da sede do Districto de Évora
Não houve sesta pois o programa incluía uma visita ao roteiro queirosiano eborense guiada por dois historiadores da comissão coordenadora dos 150 anos de Eça em Évora, Dr. Manuel Branco e Dr. Manuel Alcario, este último autor da tese de mestrado Eça de Queirós e a sua visão da política internacional (2015), que alternaram a referência aos edifícios e sítios com a leitura de extratos de textos de Eça. A visita começou na praça do Giraldo, passou por diversos locais e monumentos referidos pelo escritor nas suas crónicas, como foi o caso do Passeio Público e das suas ruinas fingidas, seguindo até à casa onde esteve instalada a redação do Districto de Évora, assinalada por uma lápide, à entrada da praça onde na época foi construído o famoso Teatro Garcia de Resende, tendo terminado de novo na praça maior da cidade na sede da Sociedade União Eborense “Bota Rasa”, de que o escritor foi sócio com as quotas em dia, como sublinhou o seu “quinto da direção” Dr. Marcial Rodrigues na receção que fez à Confraria, estando a Câmara Municipal ali representada pelo vereador da Cultura, Dr. Eduardo Luciano. Numa sala cheia com uma plateia atenta falaram o historiador da Arte, José Manuel Tedim, presidente da direção da entidade visitante, que aludiu aos propósitos culturais da visita, seguido pelo egiptólogo Luís Manuel de Araújo, vice-presidente, que mostrou as diversas atividades da agremiação, nomeadamente a participação na viagem anual ao Egito na esteira da realizada em 1869 por Eça de Queirós e o 5.º Conde de Resende, vindo a encerrar a sessão o historiador J. A. Gonçalves Guimarães, mesário-mor que dissertou sobre os Roteiros Queirosianos e, entre eles, o alentejano, que para além de Évora deverá incluir Serpa e o seu palácio dos Marqueses de Ficalho, e a herdade de Corte Condessa, perto de Beja, por onde o escritor passou em 1898 a constatar a valorização desta propriedade herdada por sua mulher. Seguidamente apresentou os condiscípulos de Eça de Queirós no curso de Direito em Coimbra naturais do distrito de Évora e a memória que deles ficou na sociedade e na cultura do seu tempo.
Os oradores da Confraria Queirosiana no Clube Bota Rasa.
Depois desta sessão evocativa seguiu-se uma receção nas instalações da Direção Regional de Cultura do Alentejo, que teve o apoio do Diário do Sul e da Fundação Eugénio de Almeida, onde a Confraria foi recebida pelo presidente da Câmara de Évora, Dr. Carlos Pinto de Sá, e pela diretora da instituição, Dr.ª Ana Paula Amendoeira, havendo ainda tempo para uma rápida visita à muralha romana integrada no edifício conduzida pelo arqueólogo Dr. Rafael Alfenim. O Jantar Queirosiano que se seguiu, partilhado pelos visitantes e por cidadãos eborenses inscritos, teve um momento inicial de guitarra clássica, a que se seguiu a teatralização de textos de Eça publicados no jornal que dirigiu por diversos elementos amadores do Grupo Pró-Évora, entre os quais um sósia natural do escritor, o seu secretário-geral Dr. Celestino David. Seguiu-se um passeio noturno até ao Templo Romano, que Eça ainda conheceu antes da sua reabilitação arquitetónica, a qual aconteceria pouco tempo depois da sua estadia.
No dia seguinte, logo pela manhã, foi a vez de uma visita a alguns dos mais importantes monumentos da cidade, guiada por José Manuel Tedim, profundo conhecedor dos seus edifícios e notáveis acervos artísticos. Passaram assim os confrades e consócios por entre numerosos grupos de turistas das mais variadas nacionalidades, pela Igreja de São Francisco, Convento da Graça, Sé Catedral e Museu de Évora, onde aconteceu uma verdadeira aula sobre a pintura quinhentista ali existente e outras obras de Arte. 
Seguiu-se um outro agradável almoço alentejano no restaurante Feito ao Bife, após o que os participantes partiram para os seus destinos, gratos pelo profissionalismo do apoio a esta viagem por parte dos funcionários da Câmara local, nomeadamente a chefe de divisão de Cultura e Património Dr.ª Cármen Almeida e o Dr. Jorge Lopes, e da simpatia de todos os participantes locais nesta jornada queirosiana de Évora, onde se ouviu falar da possibilidade da criação de um espaço museológico dedicado ao escritor, bem assim como de outras evocações ecianas a implantar nos locais que lhe estão associados, para além de uma nova edição dos textos de Eça, entretanto em reedição pelo Diário do Sul, que fez a cobertura e divulgou estas jornadas.
Em 1898, numa carta dirigida a sua mulher, Eça escreveu o seguinte: «o monte está muito habitável, restaurado de novo, com agradáveis quartos, e tudo da quase inverosímil limpeza alentejana. Estive aí três dias. Vida de lavrador. Passeios de léguas, através da herdade, sob soalheiras violentas. Madrugadas. Comezainas enormes (e deliciosas). Cenas pitorescas. E sobretudo a satisfação de ver a herdade admiravelmente tratada. Parece outra. Já tem largos montados limpos; tem hortas, vai ter vinha; há cinco poços abertos; e já se caminha durante horas ao longo de campos de centeio e trigo» (Eça de Queirós Correspondência, ed. de A. Campos Matos, vol. II, p. 406). Tinham passado trinta anos desde a sua primeira estadia. Eça correra mundo, por Malta, Egito, Palestina, Cuba, EUA, Canadá, Inglaterra, França, Espanha. Mas sempre com uma enternecida afeição pelas coisas pátrias e, entre elas, o Alentejo dos seus vinte anos, redescoberto quase no fim da vida que ainda não adivinhava.
Por tudo isto, uma lição ficou sabida: Évora é certamente uma cidade queirosiana que mantém viva e ativa a sua memória. Por isso lá voltaremos. 

J. A Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria Queirosiana

Livros
J. A. Gonçalves Guimarães na Bolsa de Copenhaga
Como noticiamos na folha anterior, nos passados dias 3 a 5 de maio a Confraria Queirosiana, a convite da Quinta da Boeira, Arte e Cultura, de Vila Nova de Gaia, através do seu mesário-mor, participou numa delegação que promoveu na capital da Dinamarca os vinhos e a cultura portuguesa, através da exposição de um conjunto de modelos de embarcações históricas da autoria do artesão afuradense Albino Costa. Com a presença do embaixador de Portugal, Dr. Rui Macieira e de representantes de várias entidades e importadores dinamarqueses, bem assim como de várias confrarias báquicas portuguesas, entre elas a do Vinho do Porto, a do Vinho da Estremadura e a do Vinho de Carcavelos, além da Federação das Confrarias Báquicas de Portugal, e de representantes de outros produtos nacionais de qualidade, foi lançado o livro de J. A. Gonçalves Guimarães Modèles de bateaux historiques portugais du XVIe au XIXe siècle. Models of portuguese historic ships of the 16th – 19th centuries, com fotografia de Diana Silva, tradução para francês de David Faneca e tradução para inglês de Rose Marie Cartledge, apresentado em inglês pelo seu autor na abertura da sessão que decorreu no salão da Bolsa de Copenhaga. Seguiu-se uma prova de vinhos do Porto que no total perfaziam 200 anos, apresentados pelo confrade Albino Jorge, ali em representação da Quinta da Boeira e da Confraria do Vinho do Porto.
Seguidamente os presentes foram recebidos na Embaixada de Portugal num almoço, a que se seguiu uma apresentação de produtos portugueses de novo no salão da Bolsa na parte da tarde. No dia seguinte teve ainda a oportunidade de visitar o Museu Viking de Roskilde onde recolheu dados sobre a sua criação a partir da Arqueologia Subaquática para um projeto semelhante em Portugal em que a Confraria está envolvida. 
Jaime Milheiro é hoje um dos mais fecundos pensadores que publicam livros em Portugal sobre o nosso quotidiano. Partindo da sua formação médica de psiquiatra e psicanalista, tem um conhecimento privilegiado da mente humana e das suas «misteriosidades», conceito que desenvolveu em obras anteriores com notável clarividência. Mas o seu pensamento sobre os seres comuns e a sua crescente orfandade nesta sociedade planeada até ao mais ínfimo pormenor já está muito para além daquelas bases profissionais. Ao contrário dos outros pensadores a que habitualmente chamamos filósofos, este outro não tem pensamentos como fechos das abóbadas do edifício da existência: trás perguntas impertinentes para as quais não tem, não temos e nem sabemos onde ir buscar a resposta ou a chave da interpretação dos modismos dos seus sujeitos. É nesta orfandade cognitiva que, como é sabido, se refugiam todas as crenças, fantasias e mitologias humanamente organizadas em religiões e transportadas por uns estranhos veículos imateriais chamados almas, cuja origem, caraterísticas e modus operandi já este pensador analisou na sua obra A Invenção da Alma. Este outro livro (MILHEIRO, Jaime (2017) – Partículas Comensais. Porto: Cordão de Leitura), disponibiliza agora pequenos textos, esboços de estórias que não precisam de ter fim ou sequer de ter continuação, como se o autor tivesse feito zapping na sua vida e na dos que com ele seguem na estrada larga da vida. Da sua, da dos outros ou a da fantasia literária, que para o caso tanto faz, pois é a vida que por ali passa em partículas que só assim não morrem e se tornam comensais. Somos, estamos e, até ver, é nossa toda a consciência do Universo. Na existência humana, assim como não há Big Bang, também não haverá Big End, embora «morrer é [seja] desativar um longuíssimo arquivo de histórias e memórias. É um desperdício». Assim termina este livro sobre inquietudes eternas presentes ao virar de cada esquina.
                       
José António Afonso, professor de História da Educação na Universidade do Minho, é um autor referencial desta temática, publicando artigos seus, não apenas em Portugal, mas um pouco por todo o Mundo em colóquios académicos e outros fóruns. Chegaram-nos agora duas publicações com textos seus publicados no Brasil: o primeiro, com António Manuel S. P. Silva, sobre A Escola do Torne (Vila Nova de Gaia), Portugal, 1883-1922: As festas como práticas educativas. In STAMATTO, Maria Inês Sucupira; NETA, Olívia Morais de Medeiros, org. (2015) - Práticas educativas, formação e memória. Campinas: Mercado de Letras; no segundo apresenta Escolas rurais na 1.ª República Portuguesa (1910-1926). Inquéritos exploratórios. In LIMA, Sandra Cristina Fagundes de; MUSIAL, Gilvanice Barbosa da Silva (2016) – Histórias e Memórias da Escolarização das Populações Rurais. Sujeitos, instituições, práticas, fontes e conflitos. São Paulo: Paco Editorial.
No próximo dia 17 de junho, sábado, este investigador lançará no Solar Condes de Resende o seu mais recente livro, feito em sequência daquele último estudo, intitulado Escolas Rurais na 1.ª República Portuguesa 1910-1926. Discursos e representações sobre a periferia. Santo Tirso: Whitebooks.

Palestras e visitas culturais

Os gatos no antigo Egito
No passado dia 6 de maio no salão nobre da reitoria da Universidade do Porto, o egiptólogo Luís Manuel de Araújo apresentou uma conferência intitulada “Miu, Miau. A presença do gato na Arte Egípcia”, sobre «esse animal doméstico muito querido no antigo Egito, deveras apreciado como caçador de ratos e outros animais indesejáveis no lar, e como terna companhia no quotidiano – de resto, como nos dias de hoje».

Tongobriga
Também no mesmo dia 6 de maio na Casa do Infante no Porto, o arqueólogo António Lima, aí apresentado pelo arqueólogo Manuel Luís Real, falou sobre “O Fórum de Tongobriga no Freixo, Marco de Canavezes”, essa importante cidade romana do Baixo Douro que agora possui um Centro de Interpretação e que ano a ano vai revelando a sua monumentalidade.

Pelos Caminhos dos Homens da Pedra Antiga
No dia 20 de maio decorreu em Carrazeda de Ansiães e Linhares uma ação cultural organizada pelo escultor Hélder de Carvalho com a colaboração de diversas pessoas e entidades, a qual constou da visita a uma exposição de Alberto Carneiro, observação da fauna, caminhada, música tradicional, degustação da gastronomia local e implantação na paisagem de duas obras escultóricas da autoria do organizador que homenageiam os antigos habitantes da região.
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 102 – quinta-feira, 25 de maio de 2017; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685 ; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração: Suana Moncóvio (foto 3); Quinta da Boeira, Arte e Cultura (foto 4).

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