quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Eça & Outras

Um abraço solidário para Piotr Riabov

Professor Piotr Riabov, fotografia  A.N.A., 14 de outubro de 2017
Em 1898, num curioso texto intitulado A Rainha, no caso D. Amélia de Orleães e Bragança, publicado na Revista Moderna, Eça de Queirós definiu-se politicamente como um «vago anarquista entristecido, idealizador, humilde, inofensivo…Anarquismo, mesmo vago…». Estava a menos de dois anos da sua imprevisível morte, e por isso ainda lutava contra «a presença angustiosa das misérias humanas, tanto velho sem lar, tanta criancinha sem pão, e a incapacidade ou indiferença de monarquias e repúblicas, para realizar a única obra urgente do mundo – “a casa para todos, o pão para todos”». Desde muito novo que partilhava, mesmo sem os definir ou sem sequer assim os denominar, alguns princípios do ideal anarquista. Em setembro de 1871, aos vinte e cinco anos de idade, escrevia em As Farpas que a política da época era «a posição dos nulos, a ocupação dos vadios, a ciência dos ignorantes, o préstimo dos inúteis, a grandeza dos medíocres, a renda dos que não têm renda». Mas foi sobretudo durante a sua estadia como cônsul em Paris que teve oportunidade de questionar e consolidar as suas convicções, como muito bem demonstrou Sérgio Duarte num notável ensaio intitulado «Eça de Queirós e o Anarquismo», apresentado no Solar Condes de Resende num colóquio intitulado “Eça de Queirós era monárquico, republicano ou anarquista?”, organizado pela Confraria Queirosiana em 2004, depois publicado no jornal A Batalha de setembro-outubro desse mesmo ano, onde concluiu que «Eça foi até ao fim da vida adepto de um socialismo federalista de cariz proudhoniano. Nunca foi um ativista político, devido às funções oficiais que desempenhava e, muito provavelmente, também por falta de vocação militante, mas nunca deixou de defender as suas ideias, mesmo quando isso lhe poderia ter trazido alguns dissabores».
Segundo Proudhon «a liberdade, sem o socialismo, constitui um privilégio; o socialismo, sem a liberdade, é o caminho da autocracia e da escravidão». Por sua vez Stirner adopta como ideal «a liberdade absoluta do espírito humano… [com a qual] …o interesse pessoal do indivíduo é a sua única lei, tendo cada um direito ao seu desenvolvimento integral, tanto quanto lho permita o próprio poder» (GETTELL, História das Ideias Políticas, Lisboa: Editorial Inquérito, 1936, p. 552/553). São algumas destas questões que Eça equaciona através da personagem de Fradique Mendes, caracterizado por «esta independência, esta livre elasticidade de espírito e intensa sinceridade», mas tendo em conta que, tanto ele quanto Fradique, não eram homens de ciência, nem filósofos, não podendo por isso «concorrer para o melhoramento dos [s]meus semelhantes – nem acrescendo-lhes o bem estar por meio da ciência… nem elevando-lhes o bem sentir por meio da metafísica» (…) «Só me resta ser, através das ideias e dos factos, um homem que passa, infinitamente curioso e atento» (Eça de Queirós, A Correspondência de Fradique Mendes). Daí aquela certeza de ser apenas «um vago anarquista entristecido…», um daqueles que as tiranias facilmente toleram por serem quase inofensivos. Mas já não será assim quando se trata de homens de pensamento quando estes são professores ativos, que além de darem aulas, escrevem livros em que as perguntas, muito mais do que as respostas, são legítimas e incómodas, e fazem intervenções públicas levando os outros cidadãos a interrogarem-se e a procurarem respostas que não mintam à sua condição humana nem à sua inteligência. Eça também experimentou a prepotência oficial contra as suas interrogações apresentadas nas sessões das Conferências do Casino, mandadas encerrar pelo governo de então. Mas não foi preso nem perseguido, embora tivesse sido prejudicado na sua carreira consular. Mais tarde, dessa censura sobre as suas convicções nascerá a metáfora de O Mandarim.
         Não é assim nos dias de hoje na Federação Russa putiniana: Piotr Riabov, mestre em Filosofia, considerado um dos principais historiadores do Anarquismo e do Existencialismo na Rússia, docente do departamento de Filosofia da Universidade de Pedagogia de Moscovo, foi preso no passado dia 9 de outubro na Bielorrússia quando proferia uma palestra sobre aquele tema. A polícia invadiu as instalações onde decorria a palestra e prendeu-o, bem assim como outras vinte pessoas que o escutavam, tendo ainda apreendido os livros e outros impressos de apoio. Levados para a esquadra, foram libertados depois de interrogados. Mas no dia seguinte, quando estava na estação ferroviária prestes a embarcar para Moscovo, aquele professor foi novamente detido, sendo depois julgado e condenado a seis dias de prisão, acusado de vandalismo e de divulgação de ideias extremistas. Em protesto contra esta prepotência inadmissível nos dias de hoje, entrou em greve de fome, gerando um movimento de solidariedade e apoio internacionais em volta da sua ação pela liberdade de pensamento.
         Sendo pois hoje o governo de Putin em Moscovo muito mais repressivo e tacanho do que em 1871 o do senhor Conde de Ávila em Lisboa, o tal que proibiu as Conferências, resta-me enviar daqui, a título pessoal, um abraço fraterno de solidariedade ao colega Piotr Riabov, acompanhado do meu mais veemente protesto contra a sua arbitrária prisão e perseguição contrário ao Direito internacional e às convenções assinadas por Portugal a favor da liberdade de pensamento e de expressão. Creio bem que Eça de Queirós igualmente subscreverá esta posição.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria

Livros

Embora já publicado e editado por Manuel Almeida dos Santos em 2014, chegou-nos agora à mão o livro ONGs – Passado e Presente. Uma experiência pessoal, com impressivos relatos das vivências do autor sobre o trabalho de algumas organizações não governamentais às quais tem dedicado uma boa parte da sua vida. Em prol do seu semelhante. Começando por definir o seu âmbito e utilidade numa perspetiva ética da cidadania, aborda questões que vão da escravatura à tortura, do terrorismo de Estado às dádivas de sangue, das prisões aos castigos corporais sobre as crianças, tudo «contributos para uma nova ordem política, económica e social». Por fim o autor expõe-se indicando a sua relação pessoal com algumas ONGs.

Acaba de ser publicada uma nova monografia de Francisco Barbosa da Costa intitulada São Martinho de Mozelos – Notas Monográficas, edição da respetiva Junta de Freguesia com o apoio de várias empresas sediadas nesta freguesia santamariana. Após a publicação desde 1980, de idênticas edições referentes a muitas das freguesias de Vila Nova de Gaia, tendo começado pela terra da sua naturalidade, a freguesia de Canelas, já com posterior reedição, e depois de vários livros sobre o património institucional da região a partir do arquivo do Governo Civil e do Arquivo Distrital do Porto, este novo livro, para além dos aspetos geográficos, históricos, institucionais e etnográficos, apresenta ainda o património construído, institucional e as figuras notáveis da terra, passando assim a ser uma publicação de referência para os mozelenses atuais e vindouros.

Partículas Comensais, de Jaime Milheiro
         No passado dia 18 de outubro, na UNICEPE no Porto, Arnaldo Trindade apresentou o novo livro de Jaime Milheiro intitulado Partículas Comensais, onde o autor continua a analisar as misteriosidades que o ser humano, dispensado que tem sido da luta pela sobrevivência quotidiana, inventa para se sentir vivo, pois a alternativa seria regressar ao primevo galho da árvore, solução que só alguns grupelhos pouco numeroso advogam.

Palestras, cursos, congressos e outros eventos

O Tempo dos Professores
         Nos passados dias 28 a 30 de setembro decorreu no Porto na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação o Congresso Internacional “O Tempo dos Professores”, no qual José António Martin Moreno Afonso apresentou o trabalho «Memórias dos anos de formação de uma professora portuense nos anos de 1920», baseado na documentação sobre uma discípula de Teófilo Braga depositada na Confraria Queirosiana.

Igreja de Mafamude
            No passado dia 30 de setembro, o historiador de Arte e residente da direção da Confraria Queirosiana conduziu uma visita guiada da Associação Cultural Amigos de Gaia à igreja de Mafamude, exemplar da arquitetura joanina, onde dissertou sobre o seu altar das Almas, o S. Cristóvão de Afonseca Lapa, o Senhor Morto de Soares dos Reis, mutilado no século XIX e outras obras de Arte Sacra que ali pertencem.

História da Misericórdia Porto
             Nos passados dias 12 a 14 de outubro decorreu no Porto o IV Congresso de História da Misericórdia do Porto, subordinado ao tem “Pessoa(s), Arte e Benemerência” no qual falaram, entre muitos outros conferencistas, Francisco Ribeiro da Silva sobre «Os Cartorários e o Arquivo Histórico da Misericórdia do Porto. O caso exemplar de Querubino Henriques Lagoa», António Manuel S. P. Silva sobre «O Castelo de Gaia, um sítio arqueológico excecional e um valor cultural a potenciar» e Jorge Fernandes Alves sobre «Política e Misericórdia – Algumas incidências dos mandatos do Provedor António Luís Gomes na SCMP»

Palestras
No passado dia 20 de outubro, J. A. Gonçalves Guimarães apresentou na Escola Básica Soares dos Reis em Vila Nova de Gaia uma proposta para um roteiro sobre a vida e obra de Soares dos Reis centrado na terra da sua naturalidade e na vizinha cidade do Porto. No próximo dia 26 falará de manhã na Escola Secundária Sophia de Mello Breyner em Arcozelo sobre “As bibliotecas da minha vida” e á noite, nas habituais palestras das últimas quintas-feiras do mês do Solar Condes de Resende sobre “O Centro Histórico de Gaia como zona portuária no período da industrialização” .

Vinhas e Vinhos
         Hoje, 25 de outubro, tem início o “Vinhas e Vinhos: II Congresso Internacional”, organizado pela APHVIN/GEHVID – Associação Portuguesa de História da Vinha e do Vinho, com abertura no Porto na Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes. Entre muitos outros investigadores participarão com comunicação J. A. Gonçalves Guimarães e Licínio Santos que falarão sobre a “Produção de vinhos de marca em contexto urbano: o caso dos Nicolau de Almeida em Vila Nova de Gaia”; e Nuno Resende sobre “O Vinho no discurso intra e interfamiliar em Casas do Douro (séc. XVI-XIX)”.

Arqueólogos Portugueses
         Nos dias 22 a 26 de novembro decorrerá em Lisboa o II Congresso da Associação dos Arqueólogos Portugueses com um basto programa no qual será apresentado o trabalho intitulado “O Projeto Castr’Uíma (Vila Nova de Gaia, 2010-2015): elementos e reflexões para um balanço prospetivo” da autoria de António Manuel S. P. Silva, J. A. Gonçalves Guimarães, Filipe M. S. Pinto, Laura Sousa, Joana Leite, Paulo Lemos, Pedro Pereira e Maria de Fátima Teixeira. Esta comunicação faz um balanço desta intervenção realizada entre 2010 e 2015 no Castelo de Crestuma pelo Gabinete de História, Arqueologia e Património da ASCR-CQ:

Exposições
Pintora Paula Costa Alves
No passado dia 21 de outubro abriu ao público no Palácio dos Viscondes de Balsemão no Porto a exposição “A expulsão do Paraíso” da pintora Paula Costa Alves, professora do curso livre de Pintura da Confraria Queirosiana no Solar Condes de Resende. Possuidora de um notável percurso como professora e como pintora, «esta exposição-instalação explora o poder de semelhança – e a forte carga emocional – entre a imagem de Adão na obra “A expulsão de Adão e Eva do paraíso” de Masaccio e uma das fotografias mais icónicas dos sobreviventes dos atentados de 11 de setembro de 2001…» (do folheto de apresentação). A mostra estará patente até 18 de novembro.

Salon d’Automne queirosiano
            No próximo dia 4 de novembro, pelas 17,30 horas abrirá ao público no Solar Condes de Resende a edição 2017 desta mostra de Artes Plásticas dos Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, com obras de Abel Barros, Ana Matos, Angelina Rodrigues, António Almada, António Lacerda, António Pinto, António Rua, Carolina Calheiros Lobo, Cerâmica do Douro, Emília Maia, Ilda Gomes, Luísa Tavares, Maria Eduarda Vilhena, Rodrigo Costa, Rosalina Sousa, Susana Moncóvio, Teresa Girão Osório e Valença Cabral, a qual estará patente até ao final do mês de dezembro.

Roteiro Queirosiano de Évora

No dia 27 de setembro passado foi apresentado no salão nobre dos Paços do Concelho de Évora, o novo roteiro turístico dedicado à presença de Eça de Queirós no município em 1867, complementado com uma visita conduzida pelos investigadores Manuel Alcario e Manuel Branco, a qual teve início junto à entrada do Jardim Público e terminou no largo Conde de Vila Flor junto ao Museu e à Biblioteca Pública de Évora. Tiveram como principal objetivo, além da evocação da sua presença, a divulgação da sua escrita jornalística e política.
Esta iniciativa inseriu-se num programa municipal mais vasto de celebração do Dia Mundial do Turismo. O Roteiro Queirosiano representa uma nova forma de dar a conhecer a cidade aos turistas, que vão poder de forma gratuita realizar este novo percurso pedestre, remetendo para os principais eventos e locais onde o escritor viveu, que frequentou e sobre os quais escreveu há 150 anos.
Com esta apresentação, a Câmara Municipal de Évora encerrou assim um conjunto de iniciativas que decorreram de janeiro a setembro de 2017 e que contaram com a colaboração de várias entidades locais e nacionais (como foi o caso da Confraria Queirosiana) e com um grupo de cidadãos eborenses. Revelaram também importantes acontecimentos ocorridos no período regenerador na cidade e no país.
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 107 – quarta-feira, 25 de outubro de 2017; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Eça & Outras

Pode uma criança usar o apelido Eça como nome próprio?

            O apelido luso-galaico Eça parece provir do latim ersa, de erigere, erguer a prumo, levantar, construir, instituir. Deveria ter evoluído para essa, mas para não se confundir com o pronome designativo esse/essa, passou a grafar-se eça, sendo pois homófonas com grafias e significados diferentes.
            Mas na realidade este apelido em Portugal vem de uma localidade galega chamada Eza, senhorio concedido a D. Fernando, filho primogénito de D. João, por sua vez filho de D. Pedro e D. Inês. Tendo saído do país com seu pai, após este ter assassinado sua mãe, D. Maria Teles de Meneses, por ciúmes, viveu muito tempo na Galiza e recebeu aquele senhorio de seu primo segundo, D. Fradique de Castro, duque de Arjona, tomando daí o apelido e passando a designar-se D. Fernando de Eza, ou Deza, depois aportuguesado para Deça, ou de Eça, nos seus descendentes.
            Ainda em Portugal, como apelido de família, a mais conhecida foi a dos Pereira de Eça, da família de D. Carolina Augusta Pereira d´Eça, que por ter casado com o juiz Dr. José Maria de Almeida Teixeira de Queirós, transmitiram a seus filhos os sobrenomes Eça de Queirós, que foram usados como nome literário e social pelo filho primogénito, o escritor José Maria Eça de Queirós, também usados pelos seus laterais e descendentes, mas com o nome próprio. Mas hoje, comummente, no mundo da lusofonia e na literatura internacional os apelidos Eça de Queirós designam apenas e só o grande escritor. Porém, devido à sua popularidade e impacto da obra na Cultura Portuguesa também costuma ser coloquialmente designado simplesmente como Eça, “o Eça”, e todos sabemos de quem estamos a falar.
            São relativamente vulgares alguns gentílicos assumidos como nomes próprios portugueses, mesmo quando os que os usam, e os seus progenitores que lhos deram, o não saibam ou o não considerem, quantas vezes atribuídos apenas para homenagear um antepassado ou um padrinho. Temos assim, por exemplo, os Vasco, inicialmente os originários do País Basco (Vasco, do latim vascones), mas que hoje já não o serão; os Albano, que não o serão de Alba Longa, remota cidade latina, nem da Albânia, país adriático; nem as Alexandrinas, serão de Alexandria no Egito, mas simples feminino de Alexandre; os Américo, esquecidos os Amalaricos e os Almericos de onde provem o nome, não o serão tanto pelo Vespucci, mas pela América, como continente ou país, e quanto às Fátima portuguesas, nada terão a ver com a filha do Profeta e esposa de Ali, o 4º califa, de seu nome FaTmâ, a desmamada, mas sim com a povoação perto de Leiria onde em 1917 ocorreram fenómenos para-religiosos. São pois gentílicos usados como nome próprio e outros poderíamos acrescentar. Então porque é que o gentílico Eça, se assim o considerarmos pelos motivos acima expostos, não poderá ser usado como nome próprio português? Dirão que a povoação de Eza/Eça não é suficientemente importante para tal. Mas também não o será Alba Longa, toponimicamente falando, hoje um bairro de Roma. E aí temos os Albano sem contestação. No facebook encontrei uma Eza Elizabeth, o que é efetivamente pouco, e poderá ser o mesmo que Elsa, o nome abreviado de Elisabeth/Isabel. Mas no Brasil, via internet, encontrei um Eça da Silva Canto Júnior, terapeuta ocupacional em São Gonçalo do Amarante. Poderá haver mais no mundo da lusofonia.
            Parece-me óbvio que o uso do apelido Eça, se usado como nome próprio, terá hoje a ver, já não com aquele remoto gentílico galego, mas com o nome do escritor Eça de Queirós, do mesmo modo que os muitos Herculano existentes desde o século XIX já nada terão a ver com a cidade de Herculaneum, destruída pelo Vesúvio, mas com o segundo nome próprio do escritor (Alexandre) Herculano que, tal como Eça é designado coloquialmente pelo seu primeiro apelido como se fora um nome próprio, o autor de O Monge de Cister o é pelo seu segundo nome próprio, simplesmente Herculano. Temos assim “o” Eça, “o” Herculano, “o” Camões, “o” Pessoa, “o” Saramago, etc., nomes literários usados, a posteriori, é certo, como se de nomes próprios se tratassem.
            Por todos estes motivos, e outros idênticos que poderiam ser aduzidos, tenho como válido para a Cultura Portuguesa, nomeadamente para a sua onomástica, numa perspetiva da sua tradição, inovação e perpetuidade, que tal como outros se chamam Vasco, Albano, Américo, Fátima ou Herculano, que a uma criança possa ser atribuído o nome próprio Eça. Em Portugal a entidade competente na matéria é o Instituto dos Registos e do Notariado, que todos os anos publica uma lista dos nomes aceites e dos recusados, mas que prevê que as pretensões para estes últimos sejam revistas desde que devidamente fundamentadas. O que acima escrevi é o meu contributo para essa fundamentação, para que Eça possa ser usado como nome próprio por crianças portuguesas. Para além de todas as razões histórico-linguísticas, será com certeza uma homenagem muito própria a um dos maiores vultos da Cultura Portuguesa de todos os tempos. Como é sabido, nas relações humanas, os purismos linguísticos, as gramáticas, os acordos ortográficos e outros regulamentos que tais são ótimos como códigos da estrada da vida mas, só por si, não nos levam a lado nenhum que valha a pena.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria

Eleições
            No próximo dia 1 de outubro haverá eleições para as autarquias portuguesas. Muitos dos nossos sócios e confrades queirosianos apresentam-se ao sufrágio popular nas listas de diversos partidos e coligações, mostrando assim o seu empenhamento na administração local e na melhoria das condições de vida das populações, nomeadamente nas áreas primordiais de apoio social aos mais carecidos; da defesa do ambiente e do fomento de um urbanismo sustentável; da criação de emprego e de atividades para os desocupados; de apoio às condições de vida com ausência de doenças, acidentes ou agressões, ou, quando tal não é possível, aos cuidados de saúde adequados; ao ensino livre, universal, positivista e humanista em todos os graus; ao apoio a atividades profissionais e amadoras nas áreas da Cultura, Desporto, Lazer e Espetáculo, capazes de criarem cidadãos livres, críticos, esclarecidos e empenhados na sua contemporaneidade e nos dias do futuro. Os que não são candidatos deverão participar com o seu voto, evitando assim que outros escolham por si aquilo que efetivamente diz respeito a todos e a cada um. Votai, com amor ou com raiva, mas votai!

Livros
           
Ricardo Nicolau de Almeida (RNA), um homem da Foz do Douro descendente de uma família gaiense de há muito ligada ao mundo dos vinhos, acaba de publicar as suas memórias possíveis num interessantíssimo livro intitulado “Setenta à hora”. Memórias e ajustes de contas com o passado e o futuro, muitos são os que os escrevem: a diferença estará no interesse daquilo que têm para contar e da forma como o fazem. Ora aqui temos duas mais valias incontornáveis: RNA é por natureza um aventureiro de todas as latitudes, ainda que na vida tenha realizado as mais sérias atividades comerciais e de marketing ao serviço de conhecidas empresas de vinhos de Gaia com grande profissionalismo e sucesso. Mas, como ele próprio escreveu, «sou um passageiro do meu corpo». Depois o livro não foi escrito com a preocupação de erudições, o que o transformou num relato fresco, vivo, que se lê por uma noite adentro, não apenas para sabermos como é que uma caravana maluca atravessa desertos perdidos pelas áfricas adentro, nas para ver como é que RNA escapou a situações que Júlio Verne não teria desdenhado de pôr nos livros escritos pela sua empresa de copywriters (não copyrigthers). E tudo isso com um notável humor, às vezes triste, às vezes ácido, que a vida é uma brincadeira pegada muito séria. Apenas um senão, um reparo ao autor: eu conheço muitas mais estórias impagáveis que têm RNA como protagonista que não estão neste livro, vá lá saber-se porquê. Autocensura? Sendo o autor um homem amigo da família, dos companheiros de viagem, dos desconhecidos, talvez não tenha querido melindrar ninguém com elas. Lembro-me, por exemplo, daquela vez em que teve de oficiar uma missa em latim para resolver um problema difícil de logística. Fiquei também intrigado com o facto de não falar das suas pinturas, sendo ele o segundo de uma sequência de tês pintores muito interessantes na família. Mas, no fundo, a despeito destas lacunas, é bem possível que a sua vida, como na antiga Grécia, esteja já a ser tocada pela Mitologia de Gaia, da Foz, do Douro, de África, do Brasil e de muitos outros locais, em volta deste Ulisses atual. Tive a sorte de ser brindado com um exemplar de seu livro à cause do Gabinete de História e Arqueologia, dos Afons’eiros, das escavações de Ervamoira e de outras situações em que nos encontramos e partilhamos vivências. Sendo uma edição pessoal e limitada, vai-vos ser difícil lê-lo, mas olhem que iriam dar o vosso tempo por bem empregue. JAGG.

Palestras, cursos e eventos culturais

Roteiro de Soares dos Reis
            No passado dia 4 de setembro, integrada no programa do IV Congresso Concelhio de Educação de Vila Nova de Gaia organizado pela Escola Básica de Soares dos Reis, J. A. Gonçalves Guimarães conduziu uma visita guiada sobre “Um percurso de Turismo pela vida e obra de Soares dos Reis”, com paragens e dissertação sobre o tema junto da sua estátua no jardim que tem o seu nome e junto da sua casa atelier na rua Luís de Camões, atualmente fechada e degradada, mas que um protocolo recentemente assinado entre a Câmara de Gaia e a Universidade do Porto, proprietária do imóvel, vai reabilitar para memória deste escultor gaiense do século XIX.
    
No passado dia 21 de setembro decorreu no Museu de Arte Popular, em Lisboa, a apresentação do programa nacional das Jornadas Europeias do Património 2017 em Portugal, coordenadas pela DGPC, nas quais, como habitualmente e como anunciado, participou a Academia Eça de Queirós (ASCR-CQ) com a realização de umas jornadas no Solar Condes de Resende no passado dia 23. Foi também aí lançado o programa do Ano Europeu do Património Cultural 2018, pelo ministro da Cultura Luís Filipe Castro Mendes, pelo coordenador nacional Guilherme d’ Oliveira Martins e pela diretora geral do Património Cultural. Também neste projeto participará a Academia Eça de Queirós, através da realização de um curso livre sobre Património Cultural de Gaia, com início no próximo dia 28 de outubro, e de outras iniciativas, nomeadamente a continuação da concretização editorial do projeto do Património Cultural de Gaia (PACUG).

Com a realização das Jornadas Europeias do Património, este ano subordinadas ao tema “Património e Natureza” e que decorreram no passado dia 23 no Solar Condes de Resende, reiniciou-se assim a saison cultural nesta casa municipal de cultura e da própria Confraria Queirosiana. Numa sessão presidida por José Manuel Tedim, presidente da direção da ASCR-CQ, falaram Nuno Oliveira sobre “Aspetos do Património Natural de Gaia”; Paulo Rocha sobre “O Geomonumento da Praia de Lavadores”; Susana Moncóvio sobre “O Desenho Científico como instrumento de conhecimento”; Susana Guimarães sobre “O Solar Condes de Resende e a Natureza – equilíbrios centenários a preservar”; Maria de Fátima Teixeira sobre “O Património Natural na Indústria têxtil” e J. A. Gonçalves Guimarães sobre “Património Natural na Coleção Marciano Azuaga”. Devido ao facto destas apresentações estarem limitadas nesta apresentação a um quarto de hora cada, serão posteriormente rentabilizadas nas palestras das últimas quinta-feira do mês ou noutros fóruns.

Júlio Dinis
            No próximo dia 27 de setembro no Forte de São João Baptista da Foz no Porto, integrado no Ciclo de Roteiros Literários e Conferências Foz Literária organizadas por José Valle de Figueiredo, haverá um jantar com palestra subordinada ao tema “Quem se lembra d’ As Pupilas do Sr. Reitor?”.

Músicos de Gaia
            No dia 28 de setembro, pelas 21,30 horas, na habitual palestra das últimas quintas-feiras do mês no Solar Condes de Resende, J. A. Gonçalves Guimarães falará sobre “Músicos gaienses: do lembrar ao escutar”, conferência complementada com a audição de obras escolhidas da autoria dos músicos compositores ou interpretadas por cantores e intérpretes referidos pelo palestrante.

Jornadas Culturais de Balsamão
            Nos dias 5 a 8 de outubro decorrerão no Convento de Balsamão em Macedo de Cavaleiros as XX Jornadas Culturais 2017, este ano sob o tema “Património Natural e Desenvolvimento Regional”, nas quais será conferencista Fernando Andrade Lemos do Centro Cultural Eça de Queiroz, Lisboa, que falará sobre “Balsamão – 10.000 a. C.” (em colaboração).

As Cidades na História
            Nos dias 18 a 20 de outubro decorrerá em Guimarães o II.º Congresso Histórico Internacional – Cidades na História, onde o Gabinete de História, Arqueologia e Património (GHAP) da ASCR-CQ estará presente com as seguintes comunicações: Sessão 9: Cidade Industrial, dia 19: Eva Baptista, “ Pela Creche! As dinâmicas sociais em torno da proteção da prole infantil na sede de concelho de Vila Nova de Gaia, na viragem para o século XX”; J. A. Gonçalves Guimarães, “Vila Nova de Gaia, a «Southwark do Porto» nos primórdios da época industrial”; Licínio Manuel Moreira dos Santos e Maria de Fátima Teixeira, “O centro urbano de Vila Nova de Gaia em finais de oitocentos: uma área industrial num município agrícola”. No dia 20, na Sessão 7 – Cidade Industrial, Jorge Fernandes Alves apresentará, em colaboração, o tema “Porto: a cidade industrial e o sistema portuário”.

Sepulturas escavadas na rocha
            A 19 e 20 de outubro, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e organizado pelo CITCEM e DCTP decorrerá o Congresso Internacional sobre “Sepulturas escavadas na Rocha na fachada atlântica da Península Ibérica”, no qual os membros do GHAP, António Manuel Silva, Laura Sousa e outros investigadores do projeto CASTR’UÍMA do Gabinete de História, Arqueologia e Património (ASCR-CQ), apresentaram a comunicação «As sepulturas escavadas na rocha do Castelo de Crestuma (Vila Nova de Gaia, Norte de Portugal): contextos e problemática»

(Re)usar o Douro da Antiguidade
            Entre 26 e 29 de Outubro na Casa Allen no Porto, no Mosteiro de Corpus Christi em Gaia e em Tiermes (Sória, Espanha), decorrerá o Encontro “Construir, navegar, (re)usar o Douro da Antiguidade”, organizado pela FLUP/CITCEM, com a colaboração da FAUP/CEAU, do ISPGaya, da DRN/MC, da Câmara Municipal de Gaia e da Dirección
General de Patrimonio de la Junta de Castilla y Léon. Entre muitos dos conferencistas inscritos no programa falarão António Manuel S. P. Silva sobe “Cale Callaecorum locus? Lugares e povos pré-romanos do Baixo Douro à luz da história e da arqueologia” e Lino Tavares Dias sobre “Ano Zero, ano 100, no territorium de Tongobriga”. O encontro terminará com um debate sobre o desafio “Investir em Património na bacia do Douro. Porquê?”

Curso de Património
A partir de 28 de outubro próximo, o Solar Condes de Resende e a Academia Eça de Queirós, grupo de trabalho dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana, com o patrocínio da Câmara Municipal de Gaia e a colaboração de outras entidades, vão levar a efeito o seu 24.º curso, desta feita sobre Património Cultural de Gaia certificado pelo Centro de Formação de Associação de Escolas Gaia Nascente e enquadrado nas ações do Ano Europeu do Património Cultural que se celebrará em 2018, a cujas realizações assim desde já se associam. Como habitualmente as sessões serão apresentadas por professores e investigadores que neste caso são também coordenadores dos volumes do projeto em curso sobre O Património Cultural de Gaia (PACUG), nomeadamente António Manuel S. P. Silva, Barbosa da Costa, Eduardo Vitor Rodrigues, Francisco Queiroz, Gonçalo de Vasconcelos e Sousa, J. A. Gonçalves Guimarães, José A. Rio Fernandes, José Manuel Tedim, Nuno Oliveira, Nuno Resende e Teresa Soeiro.
Destinado ao público em geral, é particularmente interessante para professores e estudantes das diversas áreas do Património e também para os profissionais de Turismo e de Gestão de Património Cultural. O curso decorrerá ao longo de 13 sessões, à média de duas tardes de sábado por mês no Solar Condes de Resende, entre as 15 e as 17 horas. A todos os participantes será entregue no final um certificado de frequência e um CD com textos dos professores sobre a matéria dada. Aos docentes para tal inscritos será passado um certificado de formação credenciada.
A frequência do Curso implica a inscrição prévia e o respetivo pagamento. O programa definitivo poderá ser visto em confrariaqueirosiana.blogspot.com
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 106 – segunda-feira, 25 de setembro de 2017; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Eça & Outras

No centenário de Alfredo Napoleão (1852-1917)
            Eça de Queirós foi um grande melómano que conhecia os grandes compositores do seu tempo e atribuía à criação e execução musicais um importante valor espiritual, artístico e social. Nas suas obras as referências musicais são abundantes e funcionam como uma melodia de fundo da ação que se desenrola, técnica essa que, já no século XX, o filme sonoro veio a utilizar e que hoje nos parece banal. Foi ele quem escreveu sobre a «filosófica instrumentação de Meyerbeer…[o] idealismo de Beethoven…[a] luminosa serenidade de Mozart…[a] música vermelha e diamantina de Verdi…[o] romantismo apaixonado de Donizetti» (O Egipto).
            Ao longo da sua vida conheceu alguns compositores e executantes portugueses, tendo trabalhado com Augusto Machado na elaboração de uma opereta cómica intitulada A Morte do Diabo, para a qual fez o libreto com Batalha Reis. Outros, que sintetizou no Cruges de Os Maias, encantavam-no com «a sua arte maravilhosa ao piano». Não sabemos se alguma vez conheceu os irmãos Napoleão, mas certamente deles ouviu falar, em Lisboa, em Londres ou em Paris. Falemos agora de um deles, a propósito do centenário do seu desaparecimento.
O pianista e compositor Alfredo Napoleão era filho do músico italiano Alessandro Napolleone Vallania, aportuguesado como Alexandre Napoleão (1808-1886), que muito novo se refugiou em Portugal, tendo-se estabelecido no Porto por volta de 1840 como professor de música, vindo a casar em Vila Nova de Gaia, na igreja de Santa Marinha, com Joaquina Amália Pinto dos Santos, daí natural. Deste matrimónio, entre outros filhos, nasceram três músicos, intérpretes e compositores, Artur (1843-1925), Aníbal (1845-1880) e Alfredo (1852-1917), celebrando-se por isso este ano o centenário da morte deste pouco recordado músico contemporâneo de Eça de Queirós.
Uma década mais novo que seu irmão Artur, foi criado em Vila Nova de Gaia por sua avó materna e depois, ainda criança, deixado em Lisboa aos cuidados do casal Wood, que lhe completam a formação musical. Em 1866, aos catorze anos, encontra-se no Rio de Janeiro onde dá um concerto perante o Imperador D. Pedro II, daí partindo para uma digressão, acabando por se fixar durante seis anos na Argentina, em Buenos Aires, e em Montevideu, no Uruguai, onde foi professor, daí regressando ao Rio de Janeiro de onde parte para Pernambuco, onde ensinou durante dois anos. A sua vida cruzar-se-á por diversas vezes com a do irmão Artur: em 1879 dão ambos um concerto na Sociedade Filarmónica Fluminense e em 1893, quando Alfredo regressa ao Brasil, tocam no Casino Fluminense e, noutro regresso em 1898, no Instituto Nacional de Música. Quando perguntavam a Alfredo, normalmente modesto e discreto, se não era irmão do, à época, famosíssimo Artur Napoleão, ele confirmava, acrescentando: «sim, é verdade, mas eu sou só músico».
Tendo voltado a Portugal em 1882, dá uma série de concertos em Lisboa e Porto, daí partindo para Londres. Em 1904 encontra-se na sua cidade natal e a 27 de outubro desse ano organiza na Granja, Vila Nova de Gaia, um concerto em que atua com Olinda da Rocha Leão, Guilhermina Suggia e Virgínia Suggia, com obras de Beethoven, Dvörjak, Strauss, Chopin, Lizst e do próprio Alfredo, o 3.º Concerto para piano e orquestra em Ré, op. 55 e Pèle-Mèle 4. Suite.
            Fixado no Porto e tendo-se entretanto dedicado ao ensino, à Granja volta de novo a 28 de setembro de 1908 para organizar um outro concerto, com a colaboração de Moreira de Sá e algumas solistas e coro encontrados entre os frequentadores daquela praia que se dedicavam à música e ao canto.
            Entretanto em 1906, estando em Lisboa, deu aí concertos que foram muito aplaudidos, vindo a falecer nesta cidade em 1917. O catálogo das suas obras, com pelo menos 70 peças algumas das quais com inovações musicais avançadas para o seu tempo, estará por fazer, tendo algumas delas sido publicadas no Brasil, na casa editora de seu irmão Artur, e também na Alemanha. Em Portugal, entre outros, foram seus editores a Casa Raymundo de Macedo, no Porto.
A 29 de setembro de 2014 o pianista português Artur Pizarro gravou para a etiqueta Hyperion com a Orquestra Nacional de Gales da BBC, dirigida por Martyn Brubbins, para a série discográfica The Romantic Piano Concerto, o Concerto n.º 2 em Mi bemol menor op. 31 de Alfredo Napoleão, provavelmente escrito em 1886.
            Compositor marcado pelo gosto de um Romantismo tardio e de uma Belle Époque perdurante, nas suas composições existem sonoridades que estarão certamente para além dessas circunstâncias, e desfrutá-las, ainda que com a curiosidade dos amateurs, creio que valerá bem a pena.
            Para Eça, a música era como o amor: «juntam-se as imagens e as comparações, tenta explicar-se – mas não se pode dizer o que ela é» (O Egipto). As mais das vezes não amamos os nossos músicos porque nem sequer os conhecemos. Por isso trouxemos aqui a evocação de Alfredo Napoleão.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria

Livros & Revistas
            
As Artes entre as Letras publicado no Porto, dedicado ao seu oitavo aniversário, com capa propositada de Siza Vieira e textos de mais de cinquenta colaboradores habituais. Além do editorial da diretora Nassalete Miranda, aí encontramos Guilherme de Oliveira Martina, Mário Cláudio, José Valle de Figueiredo, Francisco Ribeiro da Silva e J. A. Gonçalves Guimarães, a maior parte deles escrevendo sobre o 8 deitado como sinal de infinito.
A 27 de julho passado foi publicado o número 200 do jornal
Este número foi apresentado numa sessão muito concorrida que decorreu no Palacete Vasconcelos Porto, da Santa Casa da Misericórdia do Porto.


Coordenado por António Manuel S. P. Silva, e editado pela Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia/ Gaiurb, em parceria com Edições Afrontamento, acaba de aparecer o livro intitulado Cidades de Rio e Vinho. Memória, Património, Reabilitação, o qual reúne as comunicações apresentadas na Conferência Internacional de Vila Nova de Gaia sobre centros históricos realizada em 2015. Privilegiando o Centro Histórico de Gaia, os textos publicados abordam esta problemática a nível mundial, mas também os de Bordéus e do Porto. Com um prefácio de Eduardo Vitor Rodrigues, entre as comunicações agora publicadas encontram-se O Centro Histórico de Gaia, a Barra do Douro e o Mundo, por J. A. Gonçalves Guimarães, e As construções do lugar: História(s) e Arqueologia(s) do Centro Histórico de Gaia, por António Manuel S. P. Silva.


            Património Humano. Personalidades Gaienses, coordenado por Gonçalo de Vasconcelos e Sousa, professor da Universidade Católica do Porto. Patrocinado pela Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e realizado pelo Gabinete de História, Arqueologia e Património da Confraria Queirosiana, este projeto tem coordenação geral de J. A. Gonçalves Guimarães e conta com uma vasta equipa de coordenadores e investigadores profissionais que darão corpo aos 10 volumes previstos sobre todos os aspetos do Património Cultural do município e mesmo do realizado por gaienses disperso por outras latitudes, nomeadamente no Brasil. O projeto tem o apoio do Solar Condes de Resende e conta com três investigadores a tempo inteiro que não só fazem a coordenação dos conteúdos como os rentabilizam de imediato junto dos diversos públicos, nomeadamente o escolar e o académico.
Encontra-se pronto para publicação o primeiro volume do projeto PACUG – Património Cultural de Gaia, intitulado
            O presente volume, com 296 páginas, apresenta a biografia de 251 personalidades nascidas ou relacionadas com Vila Nova de Gaia ao longo de vinte séculos, entre o século I e as que faleceram antes de 31 de dezembro do ano 2000, descritas por vinte e seis autores, entre os quais, António Lima, António Manuel S. P. Silva, Eva Baptista, J. A. Gonçalves Guimarães, Laura Cristina Peixoto de Sousa, Licínio Santos, Maria de Fátima Teixeira, Paulo Jorge Sousa Costa, Susana Guimarães, Susana Moncóvio, Teresa Campos Santos e Virgília Braga da Costa.
            Estão já em preparação adiantada os volumes sobre Património de Gaia no Mundo/ Património do Mundo em Gaia, coordenado por Francisco Queiroz, e Gaia século XX: território, pessoas, atividades, coordenado por José alberto V. Rio Fernandes.

Palestras e eventos culturais

Vinho Verde
- No passado dia 29 de julho decorreu em Baião o capítulo anual da Confraria dos Vinhos Verdes. O capítulo prestou também homenagem a este vinho na vida e obra de Eça de Queirós, estando presentes, além do mesário-mor da Confraria Queirosiana, que foi insigniado como confrade enófilo, também o presidente da administração da Fundação Eça de Queiroz sediada naquele concelho.

Gastronomia portuguesa
- Na queirosiana Vila do Conde abriu ao público as suas portas no passado dia 18 de agosto a tradicional Feira da Gastronomia, onde estão representadas todas as regiões através dos seus produtos mais gostosos. Dela fazem parte vários restaurantes que este ano, sob o tema “Cozinha Portuguesa”, apresentam as mais variadas ementas do cardápio nacional. A Confraria Queirosiana, como habitualmente, fez-se representar na abertura por uma delegação dos coros gerentes.

História das Mulheres
- Na próxima quinta-feira dia 31 de agosto, nas habituais palestras da última quinta-feira do mês do Solar Condes de Resende, J. A. Gonçalves Guimarães irá falar sobre «Mulheres ilustres de Gaia», desde as figuras lendárias femininas da Antiguidade até a figuras marcantes da sociedade gaiense do século XX.

- No dia 23 de setembro, sábado, a partir das 15 horas decorrerão no Solar Condes de Resende as Jornadas Europeias do Património, este ano subordinadas ao tema Património e Natureza. Pessoas – Lugares – Histórias, com a presença dos seguintes investigadores e assuntos: Nuno Oliveira - Aspetos do Património Natural de Gaia; Paulo Rocha - O Geomonumento da Praia de Lavadores; Susana Moncóvio - O Desenho Científico como instrumento de conhecimento; Susana Guimarães - O Solar Condes de Resende e a Natureza – equilíbrios centenários a preservar; Maria de Fátima Teixeira - O Património Natural na Indústria Têxtil; J. A. Gonçalves Guimarães - Património Natural na Coleção Marciano Azuaga. A sessão é organizada pelo Solar Condes de Resende com a colaboração da associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 105 – sexta-feira, 25 de agosto de 2017; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685 ; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.


terça-feira, 25 de julho de 2017

Eça & Outras, terça-feira, 25 de julho de 2017

Património Cultural em Eça de Queirós

O conceito de Património Cultural, ao contrário do que geralmente se crê, não é óbvio, nem intuitivo, nem fácil. Requer uma grande dose de conhecimento, de sabedoria, de descomprometimento com coisas afins que com este conceito se atravessam, como Cultura, Educação, Turismo, Economia e Gestão. Anda geralmente confundido com História, Arqueologia, Arte, Arquitetura, Urbanismo, Geografia e outras disciplinas afins, que sem elas não existe, mas às quais não se reduz. Desde pelo menos o século XIX que o Património, como ciência humana e social, vem desenvolvendo teoria, metodologia e objetividade que lhe são próprias, numa sociedade que cada vez mais o invoca e utiliza, mas que, como em tudo o resto, nem sempre da melhor maneira, ou com a necessária clareza. Como muito bem definiu Carlos Alberto Ferreira de Almeida, Património Cultural é, antes de mais, Memória, não uma memória qualquer ou “toda” a memória, mas aquela que é selecionada pelo conceito de Qualidade, e que lhe é dada pela capacidade de preservação, escolha, seleção, valorização de conteúdos e aptidão para ser mais valia cultural e social. E tal tanto se aplica a um modesto cruzeiro de berma de estrada, a uma catedral ou castelo ou a um centro histórico, com a devida salvaguarda das diferenças dos seus “pesos” culturais próprios.
O vestígio, ruína, monumento, conjunto ou sítio que não é conhecido, não foi profissionalmente intervencionado, não foi tecnicamente preservado para as gerações atuais e futuras, cujos conteúdos arqueológicos, históricos ou artísticos não foram estudados, cuja mensagem não foi sintetizada, e que não foi preparado para um correto e duradouro usufruto público, não poderá ser considerado Património Cultural. Podem ser elementos em potência para um futuro enquadramento no que atrás se disse, mas não são na realidade Património, assim como não o são as memórias históricas, lendárias ou literárias sem a respetiva materialização. Serão outra coisa qualquer, ainda que muito erudita, mas não serão Património, mesmo recorrendo ao sofisma diferenciador do material e do imaterial. Mesmo o imaterial, como por exemplo o fado, para ser Património precisa de estudos, definições, arquivos, museus e o seu exercício por músicos e cantores, ou seja, de se materializar para ser Património. Este não existe pois em função de si próprio, como uma teologia qualquer, mas sim em função do que foi, do que é e daquilo que a sociedade quer que venha a ser. A sociedade como um todo, e não apenas os seus interventores, ainda que profissionais. Mas convém que todos estejam presentes. É assim que na clarificação dos conteúdos do Património de uma cidade histórica se só estiverem presentes no processo os empresários, os decisores políticos, os gestores, os empreiteiros e os organizadores da utilização económica imediata, leia-se o sector Turismo, quase de certeza que o seu Património vai sair menorizado, distorcido, desgastado e a breve prazo destruído, deixando de ter hipóteses de consolidação da sua Memória, que é uma das suas características fundamentais, uma certa eternização sustentável. Ainda que se criem situações artificiais de aparente qualidade, quase sempre em volta de mistificações elas não passarão de uma moda passageira. Os bocados de cópias de património mundial existentes em casinos e hotéis de Las Vegas ou de Macau são uma aberração pseudocultural, que aliás prefigura uma situação de roubo de Património Cultural alheio, pois Veneza ou o Vaticano não ficam para aqueles lados e de certeza que os seus promotores destruíram ou apagaram a memória local dos ameríndios ou dos portugueses. A “praga”, como J. Rentes de Carvalho chamou aos turistas acéfalos que percorrem todo o mundo sem nada realmente verem ou entenderem, talvez temporariamente gostem e paguem essas mistificações, mas Património Cultural é seguramente outra coisa. E esse é que, ou fica e valoriza-se, ou é destruído e desaparece. Cabe aos cidadãos a escolha.
Um dia escreveu Eça de Queirós. «As coisas mais úteis, porém, são importunas e mesmo escandalosas, quando invadem grosseiramente lugares que lhe não são congéneres. Nada mais necessário na vida do que um restaurante: e, todavia ninguém, por mais descrente ou irreverente, desejaria que se instalasse um restaurante com as suas mesas, o seu tinir de pratos, o seu cheiro a guisados – nas naves de Notre-Dame ou na velha Sé de Coimbra» (Eça de Queirós, A Correspondência de Fradique Mendes). O Património Cultural é o respeito criativo para com a Memória dos que nos precederam. Essa criatividade nos limites desse respeito é a Qualidade. Se tal houver temos efetivamente Património Cultural.  
 
J. A Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria Queirosiana

Livros & Revistas

No passado mês de maio foi lançada a 3ª edição de Eça. Uma biografia, de A. Campos Matos, pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, de novo revista e aumentada, já premiada nas edições anteriores pela Associação Portuguesa de Escritores e pela Associação de Críticos Literários. Tratando-se de uma biografia «onde o biógrafo pôs muito de si próprio, expondo a sua visão pessoal do biografado» e prevenindo que se trata de «um género literário sempre inacabado, sempre em permanente evolução, no caso de Eça em constante mutação», esta obra, complementada pelo Dicionário organizado pelo mesmo autor, ficarão por certo por muito tempo como fundamentais para qualquer abordagem ao universo queirosiano.
Ultimamente este investigador tem-se também debruçado sobre um aspeto inédito da via e obra de Teixeira Gomes, tendo recentemente feito uma conferência sobre este tema na Academia Portuguesa de História, de que é membro honorário. A sua análise debruça-se não tanto sobre os aspetos biográficos mas sobretudo sobre a «apreciação desvairada das artes plásticas» por parte deste antigo presidente da República.




Apresentado no 1.º Encontro Nacional de Literaturismo que decorreu nos dias 30 de junho e 1 de julho no Forte de S. João da Foz do Douro, este Roteiro Literário da Foz, de José Valle de Figueiredo que se apresenta acompanhado de um Mapa Cultural da Foz, apresenta de forma exaustiva os locais relacionados com Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Arnaldo Gama, Raúl Brandão, Guerra Junqueiro e outros cultores literários, para além de artistas, desportistas, políticos e outras personalidades marcantes desde o século XIX.



           

No passado dia 7 de julho foi lançada nas instalações da Quinta da Boeira em Vila Nova de Gaia o número 5 da revista Douro. Vinho, História & Património. Wine, History and Heritage, publicada pela Associação Portuguesa de História da Vinha e do Vinho (APHVIN/GEHVID) sediada no Porto e de que é diretor o Prof. Doutor António Barros Cardoso, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. O presente volume foi apresentado pela Prof.ª Doutora Helena Pina da mesma faculdade que se referiu aos vários artigos desta publicação, entre eles o intitulado «O Centro Histórico de Gaia, como estrutura portuária atlântica», da autoria de J. A. Gonçalves Guimarães historiador e professor de Património, tema esse que tem vindo recentemente a ser debatido na comunicação social portuense, sobre os mais variados pontos de vista, por políticos, arquitetos, urbanistas e empresários. Este artigo é uma síntese da carga histórica e patrimonial do sítio, normalmente tão ignorada quanto distorcida.




No passado dia 12 de julho no salão nobre do Museu Nacional de Arqueologia em Lisboa foi lançado um novo livro do egiptólogo Luís Manuel de Araújo pela editora A esfera dos livros, intitulado Os Grandes Mistérios do Antigo Egito, apresentado pelo Doutor Telo Ferreira Canhão, egiptólogo e investigador do Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Muitos são os aspetos ainda não desvendados sobre esta civilização milenar passados que são dois mil anos sobre a sua dissolução noutras realidades políticas desde o Império Romano até aos nossos dias que o autor aborda com o seu habitual rigor científico numa prosa suscetível de agradar a todos os seus leitores.




Chegou-nos recentemente às mãos o livro Diferenças e Semelhanças do Património Europeu, obra coletiva editada pela Onda Verde – Associação Juvenil de Ambiente e Aventura, sediada em Avintes, Vila Nova de Gaia, com prefácio e revisão histórica de Paulo Costa, onde são mostrados ruínas, edifícios e outros aspetos potenciais do Património edificado de Avintes e monumentos, museus e outros aspetos de Bucareste, Roménia (em inglês); Teo, Espanha (em castelhano) e Teramo, Itália (inglês e italiano). Aquele historiador elaborou os textos que contribuem para a memória dos elementos construídos avintenses.




O CITCEM – Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória da Faculdade de Letras da Universidade do Porto editou as comunicações apresentadas no colóquio A História da Educação em Vila Nova de Gaia, o qual decorreu a 20 de maio de 2016 no Arquivo Municipal de Vila Nova de Gaia. Dos nove estudos publicados neste volume, seis são de membros do Gabinete de História, Arqueologia e Património dos ASCR-Confraria Queirosiana, sediado no solar Condes de Resende, a saber: «A rede escolar protestante em Vila Nova de Gaia (1868-1930): uma panorâmica geral», por António Manuel S. P. Silva e José António Afonso; «A Educação em Vila Nova de Gaia (1880-1930): Projeto e balanço do estudo doutoral», por Eva Baptista; «A escola primária gaiense durante o Estado Novo na obra literária de Afonso Ribeiro e J. Rentes de Carvalho», por J. A. Gonçalves Guimarães; «A educação feminina pelas Belas Artes na sociedade de Oitocentos», por Susana Moncóvio; «As “escolas operárias” em Vila Nova de Gaia» por Licínio Santos; «Contributos educativos da Companhia de Fiação de Crestuma (Lever) para o ensino em Vila Nova de Gaia» por Fátima Teixeira.

Publicada pelo Abientes – Centro de Documentação e Investigação em História Local, será em breve lançada a brochura de Eva Baptista sobre A Festa escolar em Avintes na aurora do século XX, autora que se tem vindo a dedicar ao estudo da História da Educação em Portugal a partir de Vila Nova de Gaia, neste caso esta antiga tradição republicana do culto cívico pela natureza e pela metáfora do crescimento sustentado e útil das árvores e das crianças ambas amparadas pela escola como mater virtuosa da cidadania.



Palestras e eventos culturais

III.º Colóquio do Lumiar
No passado dia 15 de julho decorreu no auditório do Museu do Teatro em Lisboa o III.º Colóquio do Lumiar organizado pela Junta de Freguesia do Lumiar, Centro Cultural Eça de Queiroz/Telheiras/Escola Secundária Eça de Queirós, sob a coordenação de Fernando Andrade Lemos e com diversas intervenções.

Conferências do Noroeste
            No passado dia 20 de julho decorreu no auditório da Caixa de Crédito Agrícola – Caixa do Noroeste, em Viana do Castelo, a última de um primeiro ciclo de conferências mensais que ali decorreram praticamente durante um ano organizadas pela Associação Portuguesa de História da Vinha e do Vinho (APHVIN/GEHVID) com o patrocínio daquela instituição. A conferência de encerramento foi proferida por J. A. Gonçalves Guimarães intitulada «O Minho na obra de Eça de Queirós».

Palestras do Solar
         Prosseguem no Solar Condes de Resende na próxima quinta-feira, dia 27 de julho as habituais palestras da última quinta-feira do mês. Desta feita será palestrante J. A. Gonçalves Guimarães que falará sobre «Escritores de Gaia para ler no verão».

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 104 – terça-feira, 25 de julho de 2017; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685 ; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Licínio Santos; colaboração: A. Campos Matos.

domingo, 25 de junho de 2017

Eça & Outras, domingo, 25 de junho de 2017

Trás-os-Montes é já ali
J. Rentes de Carvalho
            No passado dia 30 de maio a Fundação Francisco Manuel dos Santos e a Câmara Municipal de Mogadouro homenagearam J. Rentes de Carvalho na Biblioteca Municipal Trindade Coelho, onde uma sala repleta ouviu o escritor apresentar o seu mais recente livro intitulado Trás-os-Montes, o Nordeste, apresentado por Francisco José Mateus Albuquerque Guimarães, presidente da edilidade, David Lopes, administrador e diretor-geral da fundação e Francisco José Viegas, escritor e editor. Para além dos referidos e de jornalistas vindos de Lisboa que aterrados aterraram no aeródromo local, viam-se muitos conterrâneos, amigos e admiradores da sua escrita vertical e limpa, singular na azáfama editorial deste país. Com a frontalidade habitual apresentou o seu maior pequeno grande livro, feito de pedaços de vida, amarguras, afeições e ilusões transmontanas entendidas e explicadas por quem as sente visceralmente e nessas vísceras inclui o cérebro bem sovado na masseira do pão da inteligência, o que nunca é fácil nem se espere como resultado de inspirações. Por isso cada página lhe deve ter custado horas de luta consigo próprio, jogando entre a memória, a devoção à terra e às gentes, a lealdade aos amigos da estrada percorrida entre o cais de Vila Nova de Gaia, onde nasceu, Viana do Castelo, onde se fez homem, Amsterdam onde criou profissão de professor da língua e da arte de ser português e família holandesa, Estevais do Mogadouro onde se reencontrou consigo próprio e com gerações infindáveis de gente que esgadanhou no quotidiano uma razão de existir e o conforto dos minguados sete prazeres da vida, nestas berças sempre muito contadas pelo agreste do ser e do ter. Desde então que não quer esse mundo e aflições só pra si, mas quer partilhá-lo com os outros, como quem corta generosa fatia do pão centeio para matar fomes que andam para aí disfarçadas de comezainas intelectuais.
            Começando por definir a sua geografia transmontana, que não é a histórica, nem a administrativa e muito menos a folclórica, deu conta o autor que mais fácil lhe seria escrever sobre o Portugal parido pelos decretos lisboetas do que pôr-se a litigar nesta causa própria, onde é juiz, testemunha, guarda, oficial de diligências, réu e público que assiste e comenta, tudo numa pessoa só. Este livro não é um auto-de-fé masoquista, mas um processo inacabado que não conduz a sentenças nem a condenações. Flui como o Douro, depois dos apertos das arribas, a que seguemos meandros que o hão de levar ao mar onde o sol se esconde nos horizontes adivinhados. Não tivesse J. Rentes de Carvalho nascido junto à sua foz e das ondas desse mar, que desde tamanhinho o levaram a querer saber para onde iam os barcos que via partir, e certamente seria mais um daqueles escritores que dissertam sobre pescadinhas de rabo na boca pessoais e sobre a casticidade dos que não conhecem, pois os inventam à revelia das suas evidências para sucessos de literaturas digestivas, ainda que quase sempre chatas. E este facto, que na realidade o impediu de ser mais um daqueles pastores transmontanos que guardam académicas e estéreis cabras sonhando com estrangeiras amantes, não deixa ele próprio de o referir neste livro: «Sim, sou de Gaia, com orgulho e afeição. Nela nasci, me criei, descobri mundos, o largo do Monte (dos) Judeus foi para mim alma mater, janela que me proporcionou o maravilhoso e mais caleidoscópico panorama que qualquer um pode desejar: toda uma cidade defronte como em gigantesco ecrã, a sarabanda do rio a espicaçar uma fantasia que ainda tudo desconhecia de navegações, heroísmos, agruras da vida, batalhas ou Índias, mas lhe deixava pressentir que, para lá do bulício, ficava um mundo que só podia ser de alegria, beleza e maravilhas.
            À escola que Gaia foi para mim continuo grato e nunca pagarei a dívida, mas sentimento igual merece-me a paisagem rude, majestosa, estática, sofrida, em que nasceram, viveram, amarguraram, foram a enterrar, aqueles de quem sou o último da linha.» (pág. 32).
            Mas também em terra alguma do litoral se entendem estes túneis do marão bem sofridos entre o lugar onde se nasce e aquele de onde herdamos uma infinita saudade nunca vencida mas a haver pelo que poderia ou deveria ter sido e não foi. Por isso a maior parte dos gaienses – mais de 300.000 transmontanos, minhotos, beirões, peritejanos, britânicos, brasileiros ou outros – estão sempre a pensar na terra do avô ou da bisavó e quando filosofam, escrevem, musicam, esculpem, modelam, pintam, realizam filmes, concretizam teorias e máquinas ou fazem outras obras onde acrescentam como ingredientes uns pozinhos de futuro, sabem bem de que paraísos perdidos ou a haver estão a falar. São eles assim e J. Rentes de Carvalho um dos que melhor os define.
            Neste livro o autor abriu o peito, mas não garante «que este Nordeste Transmontano seja o genuíno, corresponda por inteiro a uma realidade, ou encaixe na visão e no sentimento que outros têm dele» (pág. 75). Mas é com certeza um tributo leal à sua gente «toda de extremos, tão pronta para uma ingenuidade infantil como para a cegueira fatal». E com a leitura deste livro podemos agora bem dizer que Trás-os-Montes é já ali. 

J. A Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria Queirosiana

Eventos comemorativos


           

 No dia 3 de junho a Escola Secundária de Canelas promoveu no Solar Condes de Resende um Sarau Queirosiano entre as 16 e as 23 horas, por onde passaram danças de salão do séc. XIX, dramatização de quadros da época, jantar queirosiano, leitura de excertos de As Farpas, recital de poesia, soirèe musical, exposição temática; muitos alunos, professores e familiares.




Dia de Itália

            No dia 4 decorreram, como habitualmente no Palácio do Freixo no Porto, as comemorações da Festa Nazionale d’ Italia, organizadas pelo ConsolatoOnorario d’Italia e pela Associazione Socio-Culturale Italiana dellPortogallo Dante Alighieri, nas quais estiveram presentes diversos amigos e confrades queirosianos, estando a direção representada pelo presidente José Manuel Tedim, J. A. Gonçalves Guimarães,António Pinto Bernardo  e Susana Moncóvio.

Monumento

        No passado dia 3 de junho foi inaugurado em Vila Nova de Gaia um Monumento ao Associativismo promovido pela Federação das Coletividades de Vila Nova de Gaia, de que é presidente César Oliveira e da qual a Confraria Queirosiana é associada. Da autoria da escultora Helena Fortunato, apresenta-se com notável dimensão e implantado numa zona de expansão da cidade. Constituído por uma sólida coluna central em granito, tem inseridos nas laterais elementos giratórios em aço que simbolizam as diversas áreas do movimento associativo e as suas dinâmicas. Foi inaugurado pelo presidente da Câmara Municipal, Eduardo Vitor Rodrigues, tendo estado presentes associações internacionais, nacionais, regionais e locais.

Livros & Revistas

O Melhor Jornal escolar

No dia 27 de maio decorreu no Pavilhão Municipal de Gaia a Gala do concurso “Melhor Escola” destinado a galardoar os melhores jornais escolares promovidos pelo jornal O Gaiense, nos quais estiveram envolvidos diversos amigos e confrades queirosianos, nomeadamente nos jornais das escolas Secundária de Canelas (1.º Melhor Jornal e Melhor Reportagem) e Diogo de Macedo, Olival (3.ª Melhor Jornal e Prémio Online). Esta produção ficou perpetuada na edição de um livro com reprodução da totalidade dos jornais produzidos, entregue a cada um dos participantes, professores e alunos da escola vencedora pelo presidente da Junta de Freguesia de Canelas e pelo diretor daquele semanário no passado dia 22 de junho no Solar Condes de Resende.

             
No dia 9 de junho foi lançado no Arquivo Municipal Alberto Sampaio em Vila Nova de Famalicão o número 2 da revista Vinho Verde. História e Património. HistoryandHeritage, publicada pela Associação Portuguesa da história da Vinha e do Vinho (APHVIN/GEHVID), dedicada aos 175 anos do nascimento de Alberto Sampaio com artigos de, entre outros, Francisco Ribeiro da Silva sobre “Alberto Sampaio e Oliveira Martins. Notas de leitura da correspondência recíproca (1884-1894)” e J. A. Gonçalves Guimarães “Alberto Sampaio e a Revista de Portugal”.


            No passado dia 17 de junho no auditório da Assembleia Municipal de Vila Nova de Gaia, José António Afonso lançou o seu mais recente livro, intitulado Escolas Rurais na 1.ª República Portuguesa 1910-1926. Discursos e representações sobre aperiferia, editado pela Whitebooks. A mesa esteve composta por Albino Almeida, presidente daquele órgão autárquico, J. A. Gonçalves Guimarães pela Confraria Queirosiana e pelo solar Condes de Resende, pelo autor, professor na Universidade do Minh, e pela Prof.ª Doutora Margarida Louro Felgueiras da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, que fez a apresentação da obra, salientando o seu contributo para a compreensão da problemática da escolaridade e oportunidades sociais das crianças do mundo ruralizado da 1.ª República, cuja realidade se estendeu muito para além desta baliza cronológica e histórica.

Palestras e visitas culturais
No Solar Condes de Resende prosseguem as palestras das últimas quintas-feiras do mês. Assim no passado dia 25 de Maio, Maria de Fátima Teixeira apresentou o tema “ Os acionistas da Companhia de Fiação de Crestuma” e no próximo dia 29 de junho, J. A. Gonçalves Guimarães falará sobre “O Museu Viking de Roskilde e uma proposta para o Museu do Barco Rabelo de Gaia”.
            Diversos confrades queirosianos têm feito também várias palestras e visitas guiadas comentadas noutras instituições cujas notícias nos vão chegando: assim, no passado dia 18 de junho, José Manuel Tedim, realizou uma “visita d’ autor” no MMIPO – Museu e Igreja da Misericórdia do Porto, sob o tema “Benfeitores da SCMP – António Bessa Leite”. No próximo dia 30 de junho decorrerá no forte de São João Baptista da Foz do Douro, Porto, o I Encontro Nacional de Literaturismo - Roteiros Literários, Turismo e Gastronomia, organizado por José Valle de Figueiredo e promovido pela União das Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde, no qual participarão, entre outros, pelas 10 horas, o organizador e J. A. Gonçalves Guimarães num painel sobre “Pelos caminhos de Camilo – Roteiros camilianos de Ribeira de Pena, Famalicão, Gaia, Porto e Beiras”. Pelas 15 horas haverá um painel sobre Literatura, Turismo e Gastronomia em que participarão, entre outros, Manuel de Novaes Cabral, presidente do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, e Olga Cavaleiro, presidente da Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas; no dia 31 de julho pelas 10 horas, José Augusto Maia Marques falará sobre “Geografia de Mulheres da Beira de abel Botelho” e às 12,30, José Valle de Figueiredo sobre “Jardim da Europa à Beira-mar plantado (Tomás Ribeiro e a Geografia Cultural de Parada de Gonta)”. Nesse mesmo dia, mas às 15,30 apresentará, em colaboração, a “A Foz Literária” com uma visita aos lugares mais emblemáticos.

Exposições

                 

No próximo dia 1 de julho, pelas 18 horas, será inaugurada no Museu de Olaria em Barcelos a exposição de cerâmica contemporânea de José Ramos “ Buscando o Simples”. Autor de inconfundível obra onde os esmaltes contrastam com as terras, o autor apresentará as suas mais recentes criações neste museu encantatório que exibe a arte popular de trabalhar o barro sem prejuízo das mais avançadas propostas artísticas. Haverá uma performance de dança contemporânea.


 
Prémios

No passado dia 16 de junho a Associação Portuguesa de Museologia atribuiu os prémios APOM 2017, tendo sido distinguido com uma menção honrosa o Catálogo da exposição temporária realizada na Casa Museu Marta Ortigão Sampaio (CMP) e Museu da Quinta de Santiago (CMM) intitulada Aurélia, mulher artista (1866-1922), que contou com a colaboração de Susana Moncóvio,investigadora do Gabinete de História, Arqueologia e Património da ASCR-CQ, autora do texto “Mulheres artistas antes de Aurélia de Sousa: a lenta metamorfose de uma condição no espaço da Academia Portuense de Belas-Artes”, ali publicado.
A biografia romanceada de Mário Cláudio «Astronomia», publicado em Outubro de 2015 foi declarada vencedora do XXII Grande Prémio de LiteraturaDSTGroup, devendo o galardão ser entregue no próximo dia 30 de junho no Teatro Circo no decorrer da Feira do Livro de Braga.
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 103 – domingo, 25 de junho de 2017; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685 ; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração: Susana Moncóvio