sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Eça & Outras

No centenário de Alfredo Napoleão (1852-1917)
            Eça de Queirós foi um grande melómano que conhecia os grandes compositores do seu tempo e atribuía à criação e execução musicais um importante valor espiritual, artístico e social. Nas suas obras as referências musicais são abundantes e funcionam como uma melodia de fundo da ação que se desenrola, técnica essa que, já no século XX, o filme sonoro veio a utilizar e que hoje nos parece banal. Foi ele quem escreveu sobre a «filosófica instrumentação de Meyerbeer…[o] idealismo de Beethoven…[a] luminosa serenidade de Mozart…[a] música vermelha e diamantina de Verdi…[o] romantismo apaixonado de Donizetti» (O Egipto).
            Ao longo da sua vida conheceu alguns compositores e executantes portugueses, tendo trabalhado com Augusto Machado na elaboração de uma opereta cómica intitulada A Morte do Diabo, para a qual fez o libreto com Batalha Reis. Outros, que sintetizou no Cruges de Os Maias, encantavam-no com «a sua arte maravilhosa ao piano». Não sabemos se alguma vez conheceu os irmãos Napoleão, mas certamente deles ouviu falar, em Lisboa, em Londres ou em Paris. Falemos agora de um deles, a propósito do centenário do seu desaparecimento.
O pianista e compositor Alfredo Napoleão era filho do músico italiano Alessandro Napolleone Vallania, aportuguesado como Alexandre Napoleão (1808-1886), que muito novo se refugiou em Portugal, tendo-se estabelecido no Porto por volta de 1840 como professor de música, vindo a casar em Vila Nova de Gaia, na igreja de Santa Marinha, com Joaquina Amália Pinto dos Santos, daí natural. Deste matrimónio, entre outros filhos, nasceram três músicos, intérpretes e compositores, Artur (1843-1925), Aníbal (1845-1880) e Alfredo (1852-1917), celebrando-se por isso este ano o centenário da morte deste pouco recordado músico contemporâneo de Eça de Queirós.
Uma década mais novo que seu irmão Artur, foi criado em Vila Nova de Gaia por sua avó materna e depois, ainda criança, deixado em Lisboa aos cuidados do casal Wood, que lhe completam a formação musical. Em 1866, aos catorze anos, encontra-se no Rio de Janeiro onde dá um concerto perante o Imperador D. Pedro II, daí partindo para uma digressão, acabando por se fixar durante seis anos na Argentina, em Buenos Aires, e em Montevideu, no Uruguai, onde foi professor, daí regressando ao Rio de Janeiro de onde parte para Pernambuco, onde ensinou durante dois anos. A sua vida cruzar-se-á por diversas vezes com a do irmão Artur: em 1879 dão ambos um concerto na Sociedade Filarmónica Fluminense e em 1893, quando Alfredo regressa ao Brasil, tocam no Casino Fluminense e, noutro regresso em 1898, no Instituto Nacional de Música. Quando perguntavam a Alfredo, normalmente modesto e discreto, se não era irmão do, à época, famosíssimo Artur Napoleão, ele confirmava, acrescentando: «sim, é verdade, mas eu sou só músico».
Tendo voltado a Portugal em 1882, dá uma série de concertos em Lisboa e Porto, daí partindo para Londres. Em 1904 encontra-se na sua cidade natal e a 27 de outubro desse ano organiza na Granja, Vila Nova de Gaia, um concerto em que atua com Olinda da Rocha Leão, Guilhermina Suggia e Virgínia Suggia, com obras de Beethoven, Dvörjak, Strauss, Chopin, Lizst e do próprio Alfredo, o 3.º Concerto para piano e orquestra em Ré, op. 55 e Pèle-Mèle 4. Suite.
            Fixado no Porto e tendo-se entretanto dedicado ao ensino, à Granja volta de novo a 28 de setembro de 1908 para organizar um outro concerto, com a colaboração de Moreira de Sá e algumas solistas e coro encontrados entre os frequentadores daquela praia que se dedicavam à música e ao canto.
            Entretanto em 1906, estando em Lisboa, deu aí concertos que foram muito aplaudidos, vindo a falecer nesta cidade em 1917. O catálogo das suas obras, com pelo menos 70 peças algumas das quais com inovações musicais avançadas para o seu tempo, estará por fazer, tendo algumas delas sido publicadas no Brasil, na casa editora de seu irmão Artur, e também na Alemanha. Em Portugal, entre outros, foram seus editores a Casa Raymundo de Macedo, no Porto.
A 29 de setembro de 2014 o pianista português Artur Pizarro gravou para a etiqueta Hyperion com a Orquestra Nacional de Gales da BBC, dirigida por Martyn Brubbins, para a série discográfica The Romantic Piano Concerto, o Concerto n.º 2 em Mi bemol menor op. 31 de Alfredo Napoleão, provavelmente escrito em 1886.
            Compositor marcado pelo gosto de um Romantismo tardio e de uma Belle Époque perdurante, nas suas composições existem sonoridades que estarão certamente para além dessas circunstâncias, e desfrutá-las, ainda que com a curiosidade dos amateurs, creio que valerá bem a pena.
            Para Eça, a música era como o amor: «juntam-se as imagens e as comparações, tenta explicar-se – mas não se pode dizer o que ela é» (O Egipto). As mais das vezes não amamos os nossos músicos porque nem sequer os conhecemos. Por isso trouxemos aqui a evocação de Alfredo Napoleão.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria

Livros & Revistas
            
As Artes entre as Letras publicado no Porto, dedicado ao seu oitavo aniversário, com capa propositada de Siza Vieira e textos de mais de cinquenta colaboradores habituais. Além do editorial da diretora Nassalete Miranda, aí encontramos Guilherme de Oliveira Martina, Mário Cláudio, José Valle de Figueiredo, Francisco Ribeiro da Silva e J. A. Gonçalves Guimarães, a maior parte deles escrevendo sobre o 8 deitado como sinal de infinito.
A 27 de julho passado foi publicado o número 200 do jornal
Este número foi apresentado numa sessão muito concorrida que decorreu no Palacete Vasconcelos Porto, da Santa Casa da Misericórdia do Porto.


Coordenado por António Manuel S. P. Silva, e editado pela Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia/ Gaiurb, em parceria com Edições Afrontamento, acaba de aparecer o livro intitulado Cidades de Rio e Vinho. Memória, Património, Reabilitação, o qual reúne as comunicações apresentadas na Conferência Internacional de Vila Nova de Gaia sobre centros históricos realizada em 2015. Privilegiando o Centro Histórico de Gaia, os textos publicados abordam esta problemática a nível mundial, mas também os de Bordéus e do Porto. Com um prefácio de Eduardo Vitor Rodrigues, entre as comunicações agora publicadas encontram-se O Centro Histórico de Gaia, a Barra do Douro e o Mundo, por J. A. Gonçalves Guimarães, e As construções do lugar: História(s) e Arqueologia(s) do Centro Histórico de Gaia, por António Manuel S. P. Silva.


            Património Humano. Personalidades Gaienses, coordenado por Gonçalo de Vasconcelos e Sousa, professor da Universidade Católica do Porto. Patrocinado pela Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e realizado pelo Gabinete de História, Arqueologia e Património da Confraria Queirosiana, este projeto tem coordenação geral de J. A. Gonçalves Guimarães e conta com uma vasta equipa de coordenadores e investigadores profissionais que darão corpo aos 10 volumes previstos sobre todos os aspetos do Património Cultural do município e mesmo do realizado por gaienses disperso por outras latitudes, nomeadamente no Brasil. O projeto tem o apoio do Solar Condes de Resende e conta com três investigadores a tempo inteiro que não só fazem a coordenação dos conteúdos como os rentabilizam de imediato junto dos diversos públicos, nomeadamente o escolar e o académico.
Encontra-se pronto para publicação o primeiro volume do projeto PACUG – Património Cultural de Gaia, intitulado
            O presente volume, com 296 páginas, apresenta a biografia de 251 personalidades nascidas ou relacionadas com Vila Nova de Gaia ao longo de vinte séculos, entre o século I e as que faleceram antes de 31 de dezembro do ano 2000, descritas por vinte e seis autores, entre os quais, António Lima, António Manuel S. P. Silva, Eva Baptista, J. A. Gonçalves Guimarães, Laura Cristina Peixoto de Sousa, Licínio Santos, Maria de Fátima Teixeira, Paulo Jorge Sousa Costa, Susana Guimarães, Susana Moncóvio, Teresa Campos Santos e Virgília Braga da Costa.
            Estão já em preparação adiantada os volumes sobre Património de Gaia no Mundo/ Património do Mundo em Gaia, coordenado por Francisco Queiroz, e Gaia século XX: território, pessoas, atividades, coordenado por José alberto V. Rio Fernandes.

Palestras e eventos culturais

Vinho Verde
- No passado dia 29 de julho decorreu em Baião o capítulo anual da Confraria dos Vinhos Verdes. O capítulo prestou também homenagem a este vinho na vida e obra de Eça de Queirós, estando presentes, além do mesário-mor da Confraria Queirosiana, que foi insigniado como confrade enófilo, também o presidente da administração da Fundação Eça de Queiroz sediada naquele concelho.

Gastronomia portuguesa
- Na queirosiana Vila do Conde abriu ao público as suas portas no passado dia 18 de agosto a tradicional Feira da Gastronomia, onde estão representadas todas as regiões através dos seus produtos mais gostosos. Dela fazem parte vários restaurantes que este ano, sob o tema “Cozinha Portuguesa”, apresentam as mais variadas ementas do cardápio nacional. A Confraria Queirosiana, como habitualmente, fez-se representar na abertura por uma delegação dos coros gerentes.

História das Mulheres
- Na próxima quinta-feira dia 31 de agosto, nas habituais palestras da última quinta-feira do mês do Solar Condes de Resende, J. A. Gonçalves Guimarães irá falar sobre «Mulheres ilustres de Gaia», desde as figuras lendárias femininas da Antiguidade até a figuras marcantes da sociedade gaiense do século XX.

- No dia 23 de setembro, sábado, a partir das 15 horas decorrerão no Solar Condes de Resende as Jornadas Europeias do Património, este ano subordinadas ao tema Património e Natureza. Pessoas – Lugares – Histórias, com a presença dos seguintes investigadores e assuntos: Nuno Oliveira - Aspetos do Património Natural de Gaia; Paulo Rocha - O Geomonumento da Praia de Lavadores; Susana Moncóvio - O Desenho Científico como instrumento de conhecimento; Susana Guimarães - O Solar Condes de Resende e a Natureza – equilíbrios centenários a preservar; Maria de Fátima Teixeira - O Património Natural na Indústria Têxtil; J. A. Gonçalves Guimarães - Património Natural na Coleção Marciano Azuaga. A sessão é organizada pelo Solar Condes de Resende com a colaboração da associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 105 – sexta-feira, 25 de agosto de 2017; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685 ; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.


terça-feira, 25 de julho de 2017

Eça & Outras, terça-feira, 25 de julho de 2017

Património Cultural em Eça de Queirós

O conceito de Património Cultural, ao contrário do que geralmente se crê, não é óbvio, nem intuitivo, nem fácil. Requer uma grande dose de conhecimento, de sabedoria, de descomprometimento com coisas afins que com este conceito se atravessam, como Cultura, Educação, Turismo, Economia e Gestão. Anda geralmente confundido com História, Arqueologia, Arte, Arquitetura, Urbanismo, Geografia e outras disciplinas afins, que sem elas não existe, mas às quais não se reduz. Desde pelo menos o século XIX que o Património, como ciência humana e social, vem desenvolvendo teoria, metodologia e objetividade que lhe são próprias, numa sociedade que cada vez mais o invoca e utiliza, mas que, como em tudo o resto, nem sempre da melhor maneira, ou com a necessária clareza. Como muito bem definiu Carlos Alberto Ferreira de Almeida, Património Cultural é, antes de mais, Memória, não uma memória qualquer ou “toda” a memória, mas aquela que é selecionada pelo conceito de Qualidade, e que lhe é dada pela capacidade de preservação, escolha, seleção, valorização de conteúdos e aptidão para ser mais valia cultural e social. E tal tanto se aplica a um modesto cruzeiro de berma de estrada, a uma catedral ou castelo ou a um centro histórico, com a devida salvaguarda das diferenças dos seus “pesos” culturais próprios.
O vestígio, ruína, monumento, conjunto ou sítio que não é conhecido, não foi profissionalmente intervencionado, não foi tecnicamente preservado para as gerações atuais e futuras, cujos conteúdos arqueológicos, históricos ou artísticos não foram estudados, cuja mensagem não foi sintetizada, e que não foi preparado para um correto e duradouro usufruto público, não poderá ser considerado Património Cultural. Podem ser elementos em potência para um futuro enquadramento no que atrás se disse, mas não são na realidade Património, assim como não o são as memórias históricas, lendárias ou literárias sem a respetiva materialização. Serão outra coisa qualquer, ainda que muito erudita, mas não serão Património, mesmo recorrendo ao sofisma diferenciador do material e do imaterial. Mesmo o imaterial, como por exemplo o fado, para ser Património precisa de estudos, definições, arquivos, museus e o seu exercício por músicos e cantores, ou seja, de se materializar para ser Património. Este não existe pois em função de si próprio, como uma teologia qualquer, mas sim em função do que foi, do que é e daquilo que a sociedade quer que venha a ser. A sociedade como um todo, e não apenas os seus interventores, ainda que profissionais. Mas convém que todos estejam presentes. É assim que na clarificação dos conteúdos do Património de uma cidade histórica se só estiverem presentes no processo os empresários, os decisores políticos, os gestores, os empreiteiros e os organizadores da utilização económica imediata, leia-se o sector Turismo, quase de certeza que o seu Património vai sair menorizado, distorcido, desgastado e a breve prazo destruído, deixando de ter hipóteses de consolidação da sua Memória, que é uma das suas características fundamentais, uma certa eternização sustentável. Ainda que se criem situações artificiais de aparente qualidade, quase sempre em volta de mistificações elas não passarão de uma moda passageira. Os bocados de cópias de património mundial existentes em casinos e hotéis de Las Vegas ou de Macau são uma aberração pseudocultural, que aliás prefigura uma situação de roubo de Património Cultural alheio, pois Veneza ou o Vaticano não ficam para aqueles lados e de certeza que os seus promotores destruíram ou apagaram a memória local dos ameríndios ou dos portugueses. A “praga”, como J. Rentes de Carvalho chamou aos turistas acéfalos que percorrem todo o mundo sem nada realmente verem ou entenderem, talvez temporariamente gostem e paguem essas mistificações, mas Património Cultural é seguramente outra coisa. E esse é que, ou fica e valoriza-se, ou é destruído e desaparece. Cabe aos cidadãos a escolha.
Um dia escreveu Eça de Queirós. «As coisas mais úteis, porém, são importunas e mesmo escandalosas, quando invadem grosseiramente lugares que lhe não são congéneres. Nada mais necessário na vida do que um restaurante: e, todavia ninguém, por mais descrente ou irreverente, desejaria que se instalasse um restaurante com as suas mesas, o seu tinir de pratos, o seu cheiro a guisados – nas naves de Notre-Dame ou na velha Sé de Coimbra» (Eça de Queirós, A Correspondência de Fradique Mendes). O Património Cultural é o respeito criativo para com a Memória dos que nos precederam. Essa criatividade nos limites desse respeito é a Qualidade. Se tal houver temos efetivamente Património Cultural.  
 
J. A Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria Queirosiana

Livros & Revistas

No passado mês de maio foi lançada a 3ª edição de Eça. Uma biografia, de A. Campos Matos, pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, de novo revista e aumentada, já premiada nas edições anteriores pela Associação Portuguesa de Escritores e pela Associação de Críticos Literários. Tratando-se de uma biografia «onde o biógrafo pôs muito de si próprio, expondo a sua visão pessoal do biografado» e prevenindo que se trata de «um género literário sempre inacabado, sempre em permanente evolução, no caso de Eça em constante mutação», esta obra, complementada pelo Dicionário organizado pelo mesmo autor, ficarão por certo por muito tempo como fundamentais para qualquer abordagem ao universo queirosiano.
Ultimamente este investigador tem-se também debruçado sobre um aspeto inédito da via e obra de Teixeira Gomes, tendo recentemente feito uma conferência sobre este tema na Academia Portuguesa de História, de que é membro honorário. A sua análise debruça-se não tanto sobre os aspetos biográficos mas sobretudo sobre a «apreciação desvairada das artes plásticas» por parte deste antigo presidente da República.




Apresentado no 1.º Encontro Nacional de Literaturismo que decorreu nos dias 30 de junho e 1 de julho no Forte de S. João da Foz do Douro, este Roteiro Literário da Foz, de José Valle de Figueiredo que se apresenta acompanhado de um Mapa Cultural da Foz, apresenta de forma exaustiva os locais relacionados com Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Arnaldo Gama, Raúl Brandão, Guerra Junqueiro e outros cultores literários, para além de artistas, desportistas, políticos e outras personalidades marcantes desde o século XIX.



           

No passado dia 7 de julho foi lançada nas instalações da Quinta da Boeira em Vila Nova de Gaia o número 5 da revista Douro. Vinho, História & Património. Wine, History and Heritage, publicada pela Associação Portuguesa de História da Vinha e do Vinho (APHVIN/GEHVID) sediada no Porto e de que é diretor o Prof. Doutor António Barros Cardoso, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. O presente volume foi apresentado pela Prof.ª Doutora Helena Pina da mesma faculdade que se referiu aos vários artigos desta publicação, entre eles o intitulado «O Centro Histórico de Gaia, como estrutura portuária atlântica», da autoria de J. A. Gonçalves Guimarães historiador e professor de Património, tema esse que tem vindo recentemente a ser debatido na comunicação social portuense, sobre os mais variados pontos de vista, por políticos, arquitetos, urbanistas e empresários. Este artigo é uma síntese da carga histórica e patrimonial do sítio, normalmente tão ignorada quanto distorcida.




No passado dia 12 de julho no salão nobre do Museu Nacional de Arqueologia em Lisboa foi lançado um novo livro do egiptólogo Luís Manuel de Araújo pela editora A esfera dos livros, intitulado Os Grandes Mistérios do Antigo Egito, apresentado pelo Doutor Telo Ferreira Canhão, egiptólogo e investigador do Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Muitos são os aspetos ainda não desvendados sobre esta civilização milenar passados que são dois mil anos sobre a sua dissolução noutras realidades políticas desde o Império Romano até aos nossos dias que o autor aborda com o seu habitual rigor científico numa prosa suscetível de agradar a todos os seus leitores.




Chegou-nos recentemente às mãos o livro Diferenças e Semelhanças do Património Europeu, obra coletiva editada pela Onda Verde – Associação Juvenil de Ambiente e Aventura, sediada em Avintes, Vila Nova de Gaia, com prefácio e revisão histórica de Paulo Costa, onde são mostrados ruínas, edifícios e outros aspetos potenciais do Património edificado de Avintes e monumentos, museus e outros aspetos de Bucareste, Roménia (em inglês); Teo, Espanha (em castelhano) e Teramo, Itália (inglês e italiano). Aquele historiador elaborou os textos que contribuem para a memória dos elementos construídos avintenses.




O CITCEM – Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória da Faculdade de Letras da Universidade do Porto editou as comunicações apresentadas no colóquio A História da Educação em Vila Nova de Gaia, o qual decorreu a 20 de maio de 2016 no Arquivo Municipal de Vila Nova de Gaia. Dos nove estudos publicados neste volume, seis são de membros do Gabinete de História, Arqueologia e Património dos ASCR-Confraria Queirosiana, sediado no solar Condes de Resende, a saber: «A rede escolar protestante em Vila Nova de Gaia (1868-1930): uma panorâmica geral», por António Manuel S. P. Silva e José António Afonso; «A Educação em Vila Nova de Gaia (1880-1930): Projeto e balanço do estudo doutoral», por Eva Baptista; «A escola primária gaiense durante o Estado Novo na obra literária de Afonso Ribeiro e J. Rentes de Carvalho», por J. A. Gonçalves Guimarães; «A educação feminina pelas Belas Artes na sociedade de Oitocentos», por Susana Moncóvio; «As “escolas operárias” em Vila Nova de Gaia» por Licínio Santos; «Contributos educativos da Companhia de Fiação de Crestuma (Lever) para o ensino em Vila Nova de Gaia» por Fátima Teixeira.

Publicada pelo Abientes – Centro de Documentação e Investigação em História Local, será em breve lançada a brochura de Eva Baptista sobre A Festa escolar em Avintes na aurora do século XX, autora que se tem vindo a dedicar ao estudo da História da Educação em Portugal a partir de Vila Nova de Gaia, neste caso esta antiga tradição republicana do culto cívico pela natureza e pela metáfora do crescimento sustentado e útil das árvores e das crianças ambas amparadas pela escola como mater virtuosa da cidadania.



Palestras e eventos culturais

III.º Colóquio do Lumiar
No passado dia 15 de julho decorreu no auditório do Museu do Teatro em Lisboa o III.º Colóquio do Lumiar organizado pela Junta de Freguesia do Lumiar, Centro Cultural Eça de Queiroz/Telheiras/Escola Secundária Eça de Queirós, sob a coordenação de Fernando Andrade Lemos e com diversas intervenções.

Conferências do Noroeste
            No passado dia 20 de julho decorreu no auditório da Caixa de Crédito Agrícola – Caixa do Noroeste, em Viana do Castelo, a última de um primeiro ciclo de conferências mensais que ali decorreram praticamente durante um ano organizadas pela Associação Portuguesa de História da Vinha e do Vinho (APHVIN/GEHVID) com o patrocínio daquela instituição. A conferência de encerramento foi proferida por J. A. Gonçalves Guimarães intitulada «O Minho na obra de Eça de Queirós».

Palestras do Solar
         Prosseguem no Solar Condes de Resende na próxima quinta-feira, dia 27 de julho as habituais palestras da última quinta-feira do mês. Desta feita será palestrante J. A. Gonçalves Guimarães que falará sobre «Escritores de Gaia para ler no verão».

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 104 – terça-feira, 25 de julho de 2017; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685 ; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Licínio Santos; colaboração: A. Campos Matos.

domingo, 25 de junho de 2017

Eça & Outras, domingo, 25 de junho de 2017

Trás-os-Montes é já ali
J. Rentes de Carvalho
            No passado dia 30 de maio a Fundação Francisco Manuel dos Santos e a Câmara Municipal de Mogadouro homenagearam J. Rentes de Carvalho na Biblioteca Municipal Trindade Coelho, onde uma sala repleta ouviu o escritor apresentar o seu mais recente livro intitulado Trás-os-Montes, o Nordeste, apresentado por Francisco José Mateus Albuquerque Guimarães, presidente da edilidade, David Lopes, administrador e diretor-geral da fundação e Francisco José Viegas, escritor e editor. Para além dos referidos e de jornalistas vindos de Lisboa que aterrados aterraram no aeródromo local, viam-se muitos conterrâneos, amigos e admiradores da sua escrita vertical e limpa, singular na azáfama editorial deste país. Com a frontalidade habitual apresentou o seu maior pequeno grande livro, feito de pedaços de vida, amarguras, afeições e ilusões transmontanas entendidas e explicadas por quem as sente visceralmente e nessas vísceras inclui o cérebro bem sovado na masseira do pão da inteligência, o que nunca é fácil nem se espere como resultado de inspirações. Por isso cada página lhe deve ter custado horas de luta consigo próprio, jogando entre a memória, a devoção à terra e às gentes, a lealdade aos amigos da estrada percorrida entre o cais de Vila Nova de Gaia, onde nasceu, Viana do Castelo, onde se fez homem, Amsterdam onde criou profissão de professor da língua e da arte de ser português e família holandesa, Estevais do Mogadouro onde se reencontrou consigo próprio e com gerações infindáveis de gente que esgadanhou no quotidiano uma razão de existir e o conforto dos minguados sete prazeres da vida, nestas berças sempre muito contadas pelo agreste do ser e do ter. Desde então que não quer esse mundo e aflições só pra si, mas quer partilhá-lo com os outros, como quem corta generosa fatia do pão centeio para matar fomes que andam para aí disfarçadas de comezainas intelectuais.
            Começando por definir a sua geografia transmontana, que não é a histórica, nem a administrativa e muito menos a folclórica, deu conta o autor que mais fácil lhe seria escrever sobre o Portugal parido pelos decretos lisboetas do que pôr-se a litigar nesta causa própria, onde é juiz, testemunha, guarda, oficial de diligências, réu e público que assiste e comenta, tudo numa pessoa só. Este livro não é um auto-de-fé masoquista, mas um processo inacabado que não conduz a sentenças nem a condenações. Flui como o Douro, depois dos apertos das arribas, a que seguemos meandros que o hão de levar ao mar onde o sol se esconde nos horizontes adivinhados. Não tivesse J. Rentes de Carvalho nascido junto à sua foz e das ondas desse mar, que desde tamanhinho o levaram a querer saber para onde iam os barcos que via partir, e certamente seria mais um daqueles escritores que dissertam sobre pescadinhas de rabo na boca pessoais e sobre a casticidade dos que não conhecem, pois os inventam à revelia das suas evidências para sucessos de literaturas digestivas, ainda que quase sempre chatas. E este facto, que na realidade o impediu de ser mais um daqueles pastores transmontanos que guardam académicas e estéreis cabras sonhando com estrangeiras amantes, não deixa ele próprio de o referir neste livro: «Sim, sou de Gaia, com orgulho e afeição. Nela nasci, me criei, descobri mundos, o largo do Monte (dos) Judeus foi para mim alma mater, janela que me proporcionou o maravilhoso e mais caleidoscópico panorama que qualquer um pode desejar: toda uma cidade defronte como em gigantesco ecrã, a sarabanda do rio a espicaçar uma fantasia que ainda tudo desconhecia de navegações, heroísmos, agruras da vida, batalhas ou Índias, mas lhe deixava pressentir que, para lá do bulício, ficava um mundo que só podia ser de alegria, beleza e maravilhas.
            À escola que Gaia foi para mim continuo grato e nunca pagarei a dívida, mas sentimento igual merece-me a paisagem rude, majestosa, estática, sofrida, em que nasceram, viveram, amarguraram, foram a enterrar, aqueles de quem sou o último da linha.» (pág. 32).
            Mas também em terra alguma do litoral se entendem estes túneis do marão bem sofridos entre o lugar onde se nasce e aquele de onde herdamos uma infinita saudade nunca vencida mas a haver pelo que poderia ou deveria ter sido e não foi. Por isso a maior parte dos gaienses – mais de 300.000 transmontanos, minhotos, beirões, peritejanos, britânicos, brasileiros ou outros – estão sempre a pensar na terra do avô ou da bisavó e quando filosofam, escrevem, musicam, esculpem, modelam, pintam, realizam filmes, concretizam teorias e máquinas ou fazem outras obras onde acrescentam como ingredientes uns pozinhos de futuro, sabem bem de que paraísos perdidos ou a haver estão a falar. São eles assim e J. Rentes de Carvalho um dos que melhor os define.
            Neste livro o autor abriu o peito, mas não garante «que este Nordeste Transmontano seja o genuíno, corresponda por inteiro a uma realidade, ou encaixe na visão e no sentimento que outros têm dele» (pág. 75). Mas é com certeza um tributo leal à sua gente «toda de extremos, tão pronta para uma ingenuidade infantil como para a cegueira fatal». E com a leitura deste livro podemos agora bem dizer que Trás-os-Montes é já ali. 

J. A Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria Queirosiana

Eventos comemorativos


           

 No dia 3 de junho a Escola Secundária de Canelas promoveu no Solar Condes de Resende um Sarau Queirosiano entre as 16 e as 23 horas, por onde passaram danças de salão do séc. XIX, dramatização de quadros da época, jantar queirosiano, leitura de excertos de As Farpas, recital de poesia, soirèe musical, exposição temática; muitos alunos, professores e familiares.




Dia de Itália

            No dia 4 decorreram, como habitualmente no Palácio do Freixo no Porto, as comemorações da Festa Nazionale d’ Italia, organizadas pelo ConsolatoOnorario d’Italia e pela Associazione Socio-Culturale Italiana dellPortogallo Dante Alighieri, nas quais estiveram presentes diversos amigos e confrades queirosianos, estando a direção representada pelo presidente José Manuel Tedim, J. A. Gonçalves Guimarães,António Pinto Bernardo  e Susana Moncóvio.

Monumento

        No passado dia 3 de junho foi inaugurado em Vila Nova de Gaia um Monumento ao Associativismo promovido pela Federação das Coletividades de Vila Nova de Gaia, de que é presidente César Oliveira e da qual a Confraria Queirosiana é associada. Da autoria da escultora Helena Fortunato, apresenta-se com notável dimensão e implantado numa zona de expansão da cidade. Constituído por uma sólida coluna central em granito, tem inseridos nas laterais elementos giratórios em aço que simbolizam as diversas áreas do movimento associativo e as suas dinâmicas. Foi inaugurado pelo presidente da Câmara Municipal, Eduardo Vitor Rodrigues, tendo estado presentes associações internacionais, nacionais, regionais e locais.

Livros & Revistas

O Melhor Jornal escolar

No dia 27 de maio decorreu no Pavilhão Municipal de Gaia a Gala do concurso “Melhor Escola” destinado a galardoar os melhores jornais escolares promovidos pelo jornal O Gaiense, nos quais estiveram envolvidos diversos amigos e confrades queirosianos, nomeadamente nos jornais das escolas Secundária de Canelas (1.º Melhor Jornal e Melhor Reportagem) e Diogo de Macedo, Olival (3.ª Melhor Jornal e Prémio Online). Esta produção ficou perpetuada na edição de um livro com reprodução da totalidade dos jornais produzidos, entregue a cada um dos participantes, professores e alunos da escola vencedora pelo presidente da Junta de Freguesia de Canelas e pelo diretor daquele semanário no passado dia 22 de junho no Solar Condes de Resende.

             
No dia 9 de junho foi lançado no Arquivo Municipal Alberto Sampaio em Vila Nova de Famalicão o número 2 da revista Vinho Verde. História e Património. HistoryandHeritage, publicada pela Associação Portuguesa da história da Vinha e do Vinho (APHVIN/GEHVID), dedicada aos 175 anos do nascimento de Alberto Sampaio com artigos de, entre outros, Francisco Ribeiro da Silva sobre “Alberto Sampaio e Oliveira Martins. Notas de leitura da correspondência recíproca (1884-1894)” e J. A. Gonçalves Guimarães “Alberto Sampaio e a Revista de Portugal”.


            No passado dia 17 de junho no auditório da Assembleia Municipal de Vila Nova de Gaia, José António Afonso lançou o seu mais recente livro, intitulado Escolas Rurais na 1.ª República Portuguesa 1910-1926. Discursos e representações sobre aperiferia, editado pela Whitebooks. A mesa esteve composta por Albino Almeida, presidente daquele órgão autárquico, J. A. Gonçalves Guimarães pela Confraria Queirosiana e pelo solar Condes de Resende, pelo autor, professor na Universidade do Minh, e pela Prof.ª Doutora Margarida Louro Felgueiras da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, que fez a apresentação da obra, salientando o seu contributo para a compreensão da problemática da escolaridade e oportunidades sociais das crianças do mundo ruralizado da 1.ª República, cuja realidade se estendeu muito para além desta baliza cronológica e histórica.

Palestras e visitas culturais
No Solar Condes de Resende prosseguem as palestras das últimas quintas-feiras do mês. Assim no passado dia 25 de Maio, Maria de Fátima Teixeira apresentou o tema “ Os acionistas da Companhia de Fiação de Crestuma” e no próximo dia 29 de junho, J. A. Gonçalves Guimarães falará sobre “O Museu Viking de Roskilde e uma proposta para o Museu do Barco Rabelo de Gaia”.
            Diversos confrades queirosianos têm feito também várias palestras e visitas guiadas comentadas noutras instituições cujas notícias nos vão chegando: assim, no passado dia 18 de junho, José Manuel Tedim, realizou uma “visita d’ autor” no MMIPO – Museu e Igreja da Misericórdia do Porto, sob o tema “Benfeitores da SCMP – António Bessa Leite”. No próximo dia 30 de junho decorrerá no forte de São João Baptista da Foz do Douro, Porto, o I Encontro Nacional de Literaturismo - Roteiros Literários, Turismo e Gastronomia, organizado por José Valle de Figueiredo e promovido pela União das Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde, no qual participarão, entre outros, pelas 10 horas, o organizador e J. A. Gonçalves Guimarães num painel sobre “Pelos caminhos de Camilo – Roteiros camilianos de Ribeira de Pena, Famalicão, Gaia, Porto e Beiras”. Pelas 15 horas haverá um painel sobre Literatura, Turismo e Gastronomia em que participarão, entre outros, Manuel de Novaes Cabral, presidente do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, e Olga Cavaleiro, presidente da Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas; no dia 31 de julho pelas 10 horas, José Augusto Maia Marques falará sobre “Geografia de Mulheres da Beira de abel Botelho” e às 12,30, José Valle de Figueiredo sobre “Jardim da Europa à Beira-mar plantado (Tomás Ribeiro e a Geografia Cultural de Parada de Gonta)”. Nesse mesmo dia, mas às 15,30 apresentará, em colaboração, a “A Foz Literária” com uma visita aos lugares mais emblemáticos.

Exposições

                 

No próximo dia 1 de julho, pelas 18 horas, será inaugurada no Museu de Olaria em Barcelos a exposição de cerâmica contemporânea de José Ramos “ Buscando o Simples”. Autor de inconfundível obra onde os esmaltes contrastam com as terras, o autor apresentará as suas mais recentes criações neste museu encantatório que exibe a arte popular de trabalhar o barro sem prejuízo das mais avançadas propostas artísticas. Haverá uma performance de dança contemporânea.


 
Prémios

No passado dia 16 de junho a Associação Portuguesa de Museologia atribuiu os prémios APOM 2017, tendo sido distinguido com uma menção honrosa o Catálogo da exposição temporária realizada na Casa Museu Marta Ortigão Sampaio (CMP) e Museu da Quinta de Santiago (CMM) intitulada Aurélia, mulher artista (1866-1922), que contou com a colaboração de Susana Moncóvio,investigadora do Gabinete de História, Arqueologia e Património da ASCR-CQ, autora do texto “Mulheres artistas antes de Aurélia de Sousa: a lenta metamorfose de uma condição no espaço da Academia Portuense de Belas-Artes”, ali publicado.
A biografia romanceada de Mário Cláudio «Astronomia», publicado em Outubro de 2015 foi declarada vencedora do XXII Grande Prémio de LiteraturaDSTGroup, devendo o galardão ser entregue no próximo dia 30 de junho no Teatro Circo no decorrer da Feira do Livro de Braga.
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 103 – domingo, 25 de junho de 2017; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685 ; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração: Susana Moncóvio

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Eça & Outras

Évora cidade queirosiana

Conforme anteriormente anunciado e programado, nos passados dias 20 e 21 de maio a Confraria Queirosiana foi a Évora comemorar os 150 anos da passagem de Eça de Queirós por esta cidade entre o final de dezembro de 1866 e agosto de 1867, então um jovem de 21 anos recentemente formado pela Universidade de Coimbra contratado para dirigir o bissemanário Districto de Évora. Abundando já os estudos sobre as circunstâncias deste contrato e desta estadia do então jovem advogado que aí decidiu ser jornalista e escritor, têm ultimamente sido produzidos mais alguns textos que, não trazendo novidades, ajudam a refletir sobre esta importantíssima época do seu percurso e, talvez o que não seja somenos, afirmam Évora como uma cidade queirosiana de pleno direito e legítimo proveito. Sendo ela própria Património Cultural da Humanidade e o escritor poveiro militante de um Humanismo universal, continuam pois muito bem um para o outro e foi isso mesmo que a Confraria constatou.
Os participantes destas jornadas chegaram em dois grupos, o do Norte em autocarro desde o Solar Condes de Resende e o da Grande Lisboa em automóveis a partir de Lisboa, Sintra e Cascais, ficando todos alojados no hotel Vitória Stone que logo após a chegada, depois de um cosmopolita Porto tónico, lhes serviu um magnífico almoço alentejano.
Confrades queirosianos em frente da sede do Districto de Évora
Não houve sesta pois o programa incluía uma visita ao roteiro queirosiano eborense guiada por dois historiadores da comissão coordenadora dos 150 anos de Eça em Évora, Dr. Manuel Branco e Dr. Manuel Alcario, este último autor da tese de mestrado Eça de Queirós e a sua visão da política internacional (2015), que alternaram a referência aos edifícios e sítios com a leitura de extratos de textos de Eça. A visita começou na praça do Giraldo, passou por diversos locais e monumentos referidos pelo escritor nas suas crónicas, como foi o caso do Passeio Público e das suas ruinas fingidas, seguindo até à casa onde esteve instalada a redação do Districto de Évora, assinalada por uma lápide, à entrada da praça onde na época foi construído o famoso Teatro Garcia de Resende, tendo terminado de novo na praça maior da cidade na sede da Sociedade União Eborense “Bota Rasa”, de que o escritor foi sócio com as quotas em dia, como sublinhou o seu “quinto da direção” Dr. Marcial Rodrigues na receção que fez à Confraria, estando a Câmara Municipal ali representada pelo vereador da Cultura, Dr. Eduardo Luciano. Numa sala cheia com uma plateia atenta falaram o historiador da Arte, José Manuel Tedim, presidente da direção da entidade visitante, que aludiu aos propósitos culturais da visita, seguido pelo egiptólogo Luís Manuel de Araújo, vice-presidente, que mostrou as diversas atividades da agremiação, nomeadamente a participação na viagem anual ao Egito na esteira da realizada em 1869 por Eça de Queirós e o 5.º Conde de Resende, vindo a encerrar a sessão o historiador J. A. Gonçalves Guimarães, mesário-mor que dissertou sobre os Roteiros Queirosianos e, entre eles, o alentejano, que para além de Évora deverá incluir Serpa e o seu palácio dos Marqueses de Ficalho, e a herdade de Corte Condessa, perto de Beja, por onde o escritor passou em 1898 a constatar a valorização desta propriedade herdada por sua mulher. Seguidamente apresentou os condiscípulos de Eça de Queirós no curso de Direito em Coimbra naturais do distrito de Évora e a memória que deles ficou na sociedade e na cultura do seu tempo.
Os oradores da Confraria Queirosiana no Clube Bota Rasa.
Depois desta sessão evocativa seguiu-se uma receção nas instalações da Direção Regional de Cultura do Alentejo, que teve o apoio do Diário do Sul e da Fundação Eugénio de Almeida, onde a Confraria foi recebida pelo presidente da Câmara de Évora, Dr. Carlos Pinto de Sá, e pela diretora da instituição, Dr.ª Ana Paula Amendoeira, havendo ainda tempo para uma rápida visita à muralha romana integrada no edifício conduzida pelo arqueólogo Dr. Rafael Alfenim. O Jantar Queirosiano que se seguiu, partilhado pelos visitantes e por cidadãos eborenses inscritos, teve um momento inicial de guitarra clássica, a que se seguiu a teatralização de textos de Eça publicados no jornal que dirigiu por diversos elementos amadores do Grupo Pró-Évora, entre os quais um sósia natural do escritor, o seu secretário-geral Dr. Celestino David. Seguiu-se um passeio noturno até ao Templo Romano, que Eça ainda conheceu antes da sua reabilitação arquitetónica, a qual aconteceria pouco tempo depois da sua estadia.
No dia seguinte, logo pela manhã, foi a vez de uma visita a alguns dos mais importantes monumentos da cidade, guiada por José Manuel Tedim, profundo conhecedor dos seus edifícios e notáveis acervos artísticos. Passaram assim os confrades e consócios por entre numerosos grupos de turistas das mais variadas nacionalidades, pela Igreja de São Francisco, Convento da Graça, Sé Catedral e Museu de Évora, onde aconteceu uma verdadeira aula sobre a pintura quinhentista ali existente e outras obras de Arte. 
Seguiu-se um outro agradável almoço alentejano no restaurante Feito ao Bife, após o que os participantes partiram para os seus destinos, gratos pelo profissionalismo do apoio a esta viagem por parte dos funcionários da Câmara local, nomeadamente a chefe de divisão de Cultura e Património Dr.ª Cármen Almeida e o Dr. Jorge Lopes, e da simpatia de todos os participantes locais nesta jornada queirosiana de Évora, onde se ouviu falar da possibilidade da criação de um espaço museológico dedicado ao escritor, bem assim como de outras evocações ecianas a implantar nos locais que lhe estão associados, para além de uma nova edição dos textos de Eça, entretanto em reedição pelo Diário do Sul, que fez a cobertura e divulgou estas jornadas.
Em 1898, numa carta dirigida a sua mulher, Eça escreveu o seguinte: «o monte está muito habitável, restaurado de novo, com agradáveis quartos, e tudo da quase inverosímil limpeza alentejana. Estive aí três dias. Vida de lavrador. Passeios de léguas, através da herdade, sob soalheiras violentas. Madrugadas. Comezainas enormes (e deliciosas). Cenas pitorescas. E sobretudo a satisfação de ver a herdade admiravelmente tratada. Parece outra. Já tem largos montados limpos; tem hortas, vai ter vinha; há cinco poços abertos; e já se caminha durante horas ao longo de campos de centeio e trigo» (Eça de Queirós Correspondência, ed. de A. Campos Matos, vol. II, p. 406). Tinham passado trinta anos desde a sua primeira estadia. Eça correra mundo, por Malta, Egito, Palestina, Cuba, EUA, Canadá, Inglaterra, França, Espanha. Mas sempre com uma enternecida afeição pelas coisas pátrias e, entre elas, o Alentejo dos seus vinte anos, redescoberto quase no fim da vida que ainda não adivinhava.
Por tudo isto, uma lição ficou sabida: Évora é certamente uma cidade queirosiana que mantém viva e ativa a sua memória. Por isso lá voltaremos. 

J. A Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria Queirosiana

Livros
J. A. Gonçalves Guimarães na Bolsa de Copenhaga
Como noticiamos na folha anterior, nos passados dias 3 a 5 de maio a Confraria Queirosiana, a convite da Quinta da Boeira, Arte e Cultura, de Vila Nova de Gaia, através do seu mesário-mor, participou numa delegação que promoveu na capital da Dinamarca os vinhos e a cultura portuguesa, através da exposição de um conjunto de modelos de embarcações históricas da autoria do artesão afuradense Albino Costa. Com a presença do embaixador de Portugal, Dr. Rui Macieira e de representantes de várias entidades e importadores dinamarqueses, bem assim como de várias confrarias báquicas portuguesas, entre elas a do Vinho do Porto, a do Vinho da Estremadura e a do Vinho de Carcavelos, além da Federação das Confrarias Báquicas de Portugal, e de representantes de outros produtos nacionais de qualidade, foi lançado o livro de J. A. Gonçalves Guimarães Modèles de bateaux historiques portugais du XVIe au XIXe siècle. Models of portuguese historic ships of the 16th – 19th centuries, com fotografia de Diana Silva, tradução para francês de David Faneca e tradução para inglês de Rose Marie Cartledge, apresentado em inglês pelo seu autor na abertura da sessão que decorreu no salão da Bolsa de Copenhaga. Seguiu-se uma prova de vinhos do Porto que no total perfaziam 200 anos, apresentados pelo confrade Albino Jorge, ali em representação da Quinta da Boeira e da Confraria do Vinho do Porto.
Seguidamente os presentes foram recebidos na Embaixada de Portugal num almoço, a que se seguiu uma apresentação de produtos portugueses de novo no salão da Bolsa na parte da tarde. No dia seguinte teve ainda a oportunidade de visitar o Museu Viking de Roskilde onde recolheu dados sobre a sua criação a partir da Arqueologia Subaquática para um projeto semelhante em Portugal em que a Confraria está envolvida. 
Jaime Milheiro é hoje um dos mais fecundos pensadores que publicam livros em Portugal sobre o nosso quotidiano. Partindo da sua formação médica de psiquiatra e psicanalista, tem um conhecimento privilegiado da mente humana e das suas «misteriosidades», conceito que desenvolveu em obras anteriores com notável clarividência. Mas o seu pensamento sobre os seres comuns e a sua crescente orfandade nesta sociedade planeada até ao mais ínfimo pormenor já está muito para além daquelas bases profissionais. Ao contrário dos outros pensadores a que habitualmente chamamos filósofos, este outro não tem pensamentos como fechos das abóbadas do edifício da existência: trás perguntas impertinentes para as quais não tem, não temos e nem sabemos onde ir buscar a resposta ou a chave da interpretação dos modismos dos seus sujeitos. É nesta orfandade cognitiva que, como é sabido, se refugiam todas as crenças, fantasias e mitologias humanamente organizadas em religiões e transportadas por uns estranhos veículos imateriais chamados almas, cuja origem, caraterísticas e modus operandi já este pensador analisou na sua obra A Invenção da Alma. Este outro livro (MILHEIRO, Jaime (2017) – Partículas Comensais. Porto: Cordão de Leitura), disponibiliza agora pequenos textos, esboços de estórias que não precisam de ter fim ou sequer de ter continuação, como se o autor tivesse feito zapping na sua vida e na dos que com ele seguem na estrada larga da vida. Da sua, da dos outros ou a da fantasia literária, que para o caso tanto faz, pois é a vida que por ali passa em partículas que só assim não morrem e se tornam comensais. Somos, estamos e, até ver, é nossa toda a consciência do Universo. Na existência humana, assim como não há Big Bang, também não haverá Big End, embora «morrer é [seja] desativar um longuíssimo arquivo de histórias e memórias. É um desperdício». Assim termina este livro sobre inquietudes eternas presentes ao virar de cada esquina.
                       
José António Afonso, professor de História da Educação na Universidade do Minho, é um autor referencial desta temática, publicando artigos seus, não apenas em Portugal, mas um pouco por todo o Mundo em colóquios académicos e outros fóruns. Chegaram-nos agora duas publicações com textos seus publicados no Brasil: o primeiro, com António Manuel S. P. Silva, sobre A Escola do Torne (Vila Nova de Gaia), Portugal, 1883-1922: As festas como práticas educativas. In STAMATTO, Maria Inês Sucupira; NETA, Olívia Morais de Medeiros, org. (2015) - Práticas educativas, formação e memória. Campinas: Mercado de Letras; no segundo apresenta Escolas rurais na 1.ª República Portuguesa (1910-1926). Inquéritos exploratórios. In LIMA, Sandra Cristina Fagundes de; MUSIAL, Gilvanice Barbosa da Silva (2016) – Histórias e Memórias da Escolarização das Populações Rurais. Sujeitos, instituições, práticas, fontes e conflitos. São Paulo: Paco Editorial.
No próximo dia 17 de junho, sábado, este investigador lançará no Solar Condes de Resende o seu mais recente livro, feito em sequência daquele último estudo, intitulado Escolas Rurais na 1.ª República Portuguesa 1910-1926. Discursos e representações sobre a periferia. Santo Tirso: Whitebooks.

Palestras e visitas culturais

Os gatos no antigo Egito
No passado dia 6 de maio no salão nobre da reitoria da Universidade do Porto, o egiptólogo Luís Manuel de Araújo apresentou uma conferência intitulada “Miu, Miau. A presença do gato na Arte Egípcia”, sobre «esse animal doméstico muito querido no antigo Egito, deveras apreciado como caçador de ratos e outros animais indesejáveis no lar, e como terna companhia no quotidiano – de resto, como nos dias de hoje».

Tongobriga
Também no mesmo dia 6 de maio na Casa do Infante no Porto, o arqueólogo António Lima, aí apresentado pelo arqueólogo Manuel Luís Real, falou sobre “O Fórum de Tongobriga no Freixo, Marco de Canavezes”, essa importante cidade romana do Baixo Douro que agora possui um Centro de Interpretação e que ano a ano vai revelando a sua monumentalidade.

Pelos Caminhos dos Homens da Pedra Antiga
No dia 20 de maio decorreu em Carrazeda de Ansiães e Linhares uma ação cultural organizada pelo escultor Hélder de Carvalho com a colaboração de diversas pessoas e entidades, a qual constou da visita a uma exposição de Alberto Carneiro, observação da fauna, caminhada, música tradicional, degustação da gastronomia local e implantação na paisagem de duas obras escultóricas da autoria do organizador que homenageiam os antigos habitantes da região.
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 102 – quinta-feira, 25 de maio de 2017; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685 ; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração: Suana Moncóvio (foto 3); Quinta da Boeira, Arte e Cultura (foto 4).

terça-feira, 25 de abril de 2017

Eça & Outras


Maria Helena Rocha Pereira


Faleceu a 10 de abril passado no Porto uma das mulheres mais cultas do Portugal do século XX, não só pela sua capacidade pessoal, mas muito pela disciplina de estudo, da profundidade de análise e pela oficina do conhecimento produtivo. Referimo-nos a Maria Helena Rocha Pereira, ali nascida, em Cedofeita, em 1925, professora catedrática da Universidade de Coimbra e autora de numerosos livros e ensaios sobre Cultura Clássica. De imediato lhe associei algumas referências queirosianas, lembradas aliás por alguns dos seus estudos, que estas coisas, não sei se também o terá dito Virgílio, serão como as cerejas. Para além do episódio infantil em que Eça, depois de folhear as gravuras de uma Enciclopédia de Antiguidades Romanas, passou a ver como uma venerável tradição clássica o ser levado à escola por um preceptor e comprando numa venda do caminho o bolo da merenda, foi a partir da casa de uma tia que morava em Cedofeita que, adolescente, frequentou o Colégio da Lapa, onde aprendeu Latim e, talvez, alguns rudimentos de Grego, a mola impulsiva de uma vida inteira de curiosidade e admiração pela Cultura Clássica manifestada, na criação do seu altar ego Fradique Mendes, que definiu como «um Lucrécio moço» cuja avó considerava Coimbra como «um nobre centro de estudos clássicos e o derradeiro refúgio das Humanidades» em Portugal; ou no conto “A Perfeição”, baseado no canto V da Odisseia; ou na comparação da morte de Antero à do filósofo Demónax, comparando-se Eça a Lucrécio seu biógrafo; e em muitos outros escritos, incluindo a “Correspondência”, onde aqui e ali afloram reminiscências desses apetites culturais. Talvez por via indireta, e não nos textos originais, o escritor leu Virgílio, Cícero, César, Horácio, Marcial, Tibulo, e outros mais. Assumia-se como «um fiel ledor de Homero», que terá conhecido através da tradução da Odisseia de Leconte de Lisle feita em 1868.
Para muitos intelectuais do século dezanove, como o seu contemporâneo Karl Marx que lia Ésquilo no original e cuja tese de doutoramento foi sobre a filosofia da natureza em Demócrito e Epicuro, o mundo da Antiguidade Clássica, então a ser ressuscitado pela Arqueologia, pela Arte e sobretudo pelos estudos epigráficos e linguísticos que conduziram, por exemplo, à realização dos Jogos Olímpicos em Atenas em 1896, esta era uma via da procura de uma intelectualmente perdida perfeição civilizacional, da própria democracia, da beleza eterna, humanamente falando. A «Civilização helénica, e a civilização ocidental, eis algo que não foi para o escritor [Eça] nem um ser de papel, nem chavão sem conteúdo, mas a expressão da matriz cultural em que se assumiu como autêntico humanista e investiu uma das maiores somas do seu capital simbólico», como muito bem anotou Manuel dos Santos Alves no Dicionário de A. Campos Matos, edição de 2015, p. 1054.
            A Maria Helena Rocha Pereira, e de agora em diante aos discípulos que, como verdadeira professora, soube deixar, deveremos esta luminosa vontade de nos disponibilizarem os seus textos e livros que não acumulam pó nas nossas estantes e que nos permitem continuar a redescobrir esta nossa tradição humanística mediterrânica, que inclui vinho e mulheres em sublimes obras (o aldrabãozeco de mestrados do Dijsselblo em não perceberá esta parte) que contra a satisfação do status quo nos levará sempre mais além. Ao ter a notícia do seu passamento fui abrir o livro “Vasos Gregos em Portugal”, memória de uma das mais belas exposições que entre nós se fizeram nos últimos trinta anos e que lhe foi justamente dedicada.
Tendo tido em 2002 a honra e o gosto da sua presença a lecionar no curso “Introdução ao estudo das línguas antigas” no Solar Condes de Resende, em que do alto da sua sabedoria não recusou ensinar as primeiras luzes do Grego antigo a três dezenas de curiosos, e nos confirmou a existência de uma Lêkithos bojuda dos séculos V/IV a. C. na Coleção Marciano Azuaga, depois estudada pelo seu discípulo Professor Rui Morais, para além da perenidade dos seus livros que sempre poderemos revisitar, exclamarei também aqui, parafraseando Eça de Queirós nas “Notas Contemporâneas”: Sparge, precor, rosas, supra sua busta, viator! (Eu te imploro, ó viandante, que espalhes rosas sobre a sua sepultura!). Maria Helena Rocha Pereira bem que as merece.

J. A Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria Queirosiana

Livros & Revistas

No passado dia 21 de janeiro, em sessão comemorativa do 93.º aniversário dos Bombeiros Voluntários do Marco de Canavezes foi apresentado o livro(Re)Conhecer a Infância dos Bombeiros do Marco de Canaveses, da autoria de Lino Augusto Tavares Dias, ex-diretor da Escola Profissional de Arqueologia do Freixo e atual diretor do Instituto Superior Politécnico Gaya. O livro aborda a história da instituição desde a sua origem no início da segunda década do século passado e a sua atividade até ao presente. Para além da segurança das pessoas e bens de uma área urbana, como se foi tornando a cidade do Marco, esta é ainda hoje rodeada por significativas manchas verdes onde noutras épocasse apostou nas monoculturas de pinheiros e eucaliptos em detrimento das espécies autóctones,criando assim terrenos propícios para o lavrar das chamas que todos os anos dão que fazer aos seus “soldados da paz”. Esta história dos bombeiros locais é também uma narrativa da adaptação recente das comunidades ao seu território.

Ainda no mesmo município, a 31 de março foi lançado nos Paços do Concelho o livro Marco de Canaveses. O Poder Local, da autoria de Jorge Fernandes Alves, professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, com colaboração pontual de Elsa Pacheco e Lino Tavares Dias. Presidiu à sessão o presidente da edilidade Dr. Manuel Moreira, que na ocasião salientou o contributo desta obra para a memória da administração do concelho desde a sua criação pelo Liberalismo até aos tempos pós 25 de Abril, sobre os quais o autor recolheu elementos determinantes para se poder fazer a história desta terra que é também conhecida por ser a de origem de Cármen Miranda e ter no seu território as ruínas da cidade romana de Tongobriga. No átrio da Câmara uma exposição sobre os “165 anos da Fundação do Concelho de Marco de Canavezes” constituiu a moldura adequada ao lançamento desta obra certamente de referência na atual historiografia sobre o Poder Local.
Embarcações históricas
            No próximo dia 3 de maio no Hotel Ascot em Copenhaga, será apresentado o livro Modelos de Embarcações Históricas Portuguesas dos Séculos XVI a XIX, na sua tradução em inglês e francês, da autoria de J. A. Gonçalves Guimarães, que na circunstância fará uma palestra sobre a evolução da construção naval ao longo dos tempos e em especial nos estaleiros portugueses. Produzido pelo Gabinete de História, Arqueologiae Património da Confraria Queirosiana e editado pela Quinta da Boeira, Arte e Cultura, Vila Nova de Gaia, esta publicação serve de suporte descritivo à coleção de modelos de embarcações históricas da autoria do ex-pescador e ex-marítimo afuradense Albino Costa, que as construiu ao longo de anos, algumas das quais serão ali exibidas. Estarão presentes, além da Confraria Queirosiana, diversas confrarias enófilas portuguesas, que homenagearão várias personalidades que se têm distinguido na promoção da Cultura e dos vinhos portugueses na Dinamarca, havendo ainda uma prova de Vinho do Porto cujos lotes perfazem 200 anos.

Trás-os-Montes – O Nordeste
         Este é o título do novo livro de J. Rentes de Carvalho, escrito a convite da Fundação FMS, e que será lançado na Câmara de Mogadouro no próximo dia 30 de Maio com apresentação de Francisco José Viegas. Uma delegação de convidados e jornalistas de Lisboa cobrirá o evento, complementado com uma visita a Estevais, a aldeia dos antepassados do autor onde este alterna a sua existência com a cosmopolita Amsterdam. Com a sua prosa vertical e limpa a que já nos habitou o autor, não será este mais um daqueles livros que apenas cante loas às maravilhas da paisagem e aos encantos das gentes, o que todos certamente daremos como notável e certo, mas que virá cavar mais fundo e talvez explicar-nos porque é que, com tantas joias na arca e self mademan na região, as coisas tenham vindo a ser o que são, sobretudo depois que “o povo é quem mais ordena”. Por certo este livro não virá para sossegar as mitologias locais. Terá depois outro lançamento a 4 de julho na Feira do Livro de Lisboa, apresentado por Henrique Raposo. Sobre este autor, nascido em Vila Nova de Gaia em 1930, e a sua obra, leia-se NOGUEIRA, Carlos (2015) – Autobiografia,memória e tempo nos romances de J. Rentes de Carvalho, DE GRUYTER, Ibero 2015; 2015 (82): 151-169.

Palestras e colóquios
Professora Dina El-Din
No passado dia 8 de abril decorreu no Solar Condes de Resende uma conferência sobre “Egyptian Museuns and the preservation of cultural Heritage” por Dina M. Ezz El-Din, Professora Associada da Universidade de Alexandria, da Faculty of Tourism and Hotels – Tourist Guiding Department, na ocasião apresentada pelo Professor Rui Morais da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. A conferencista apresentou os diversos tipos e museus existentes no Egito, não apenas os mais conhecidos ligados à civilização faraónica, mas também os referentes à cultura copta, ao Império Otomano e ao Egito contemporâneo, não deixando de referir o projetado «maior museu do mundo» que envolverá as pirâmides e outros monumentos do planalto de Guiza. Nos contatos entretanto estabelecidos com a Confraria Queirosiana esta professora mostrou-se interessada em traduzir para árabe o livro O Egipto de Eça de Queirós, de que lhe foi oferecida uma edição em português.
            A essa mesma hora o egiptólogo Professor Doutor Luís Manuel de Araújo conduzia mais uma das suas já proverbiais visitas guiadas ao país do Nilo, com os seus alunos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e outros participantes, seguindo a inspirada visita de Eça de Queirós e do Conde de Resende em 1869.

Comemorou-se no passado dia18 de abril no Solar Condes de Resende o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, promovido internacionalmente pelo ICOMOS e em Portugal pela Direção Geral do Património Cultural, este ano sobre o tema “Património Cultural e Turismo sustentável”, com uma palestra por J. A. Gonçalves Guimarães, coordenador-geral do projeto sobre o levantamento, estudo e divulgação do Património Cultural de Gaia (PACUG). Tendo começado por relembrar os conceitos de Património Cultural e de Turismo e as condições que os tornam sustentáveis, apresentou de seguida propostas para dez roteiros turísticos, repensando o do Centro Histórico de Gaia, o das pontes e Rio Douro, o dos espaços verdes, o do património cemiterial, o dos museus de Gaia, o roteiro literário, o de Soares dos Reis e a “Escola de Gaia”, o dos mosteiros e património religioso, o roteiro industrial do Vale do Uíma e o do folclore e tradições gaienses. Estando presentes alguns dos intervenientes nas áreas do ordenamento do território e do associativismo, a palestra terminou com animado debate.

         Hoje, dia 25 de Abril pelas 15,30 horas, no edifício sede da Junta de Freguesia de Pedroso e Seixezelo, Vila Nova de Gaia, decorrerá uma conferência sobre “Pedroso, um castro, um mosteiro, uma freguesia”, sendo conferencista o Dr. António Lima, arqueólogo responsável pela Área Arqueológica de Tongobrigae professor da Escola Profissional de Arqueologia do Freixo, ambas em Marco de Canaveses. Foi também o autor do dossier da proposta de classificação do Monte Murado como imóvel de interesse público elaborado em agosto de 1989 no âmbito dos trabalhos do Gabinete de História e Arqueologia de Vila nova de Gaia sediado no Solar Condes de Resende, de que o autor foi estagiário, e que permitiu a cobertura legal que era suposto tê-lo protegido e valorizado desde 1992. A conferência tem o apoio da Direção Geral de Cultura do Norte, da Câmara Municipal de Gaia e da União de Juntas de Freguesia de Pedroso e Seixezelo.


         No próximo dia 27 de abril, às 21,30 horas, na habitual palestra da última quinta-feira do mês do Solar Condes de Resende, será apresentado por Joaquim Ramos, aluno do Mestrado em Arqueologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto a estagiar nesta instituição gaiense, o seu estudo sobre “Cerâmica tardo-romana da igreja do Bom Jesus de Gaia”, proveniente no século VI da atual Turquia e do Norte de África e resultante das escavações arqueológicas realizadas pelo Gabinete de História e Arqueologia de Vila Nova de Gaia naquele edifício do Castelo de Gaia nos finais dos anos oitenta e nos princípios dos anos noventa sob a direção do arqueólogo J. A. Gonçalves Guimarães.
        
Património de Gaia no Brasil
            No dia 28 de abril, sexta-feira, pelas 21,15 horas, decorrerá na Casa Museu Teixeira Lopes em Vila Nova de Gaia uma conferência por José Francisco Alves, doutor em História da Arte, membro do ICOM, AICA e ICOMOS e professor de escultura do Ateliê Livre de Porto Alegre, sobre “ Teixeira Lopes e o Brasil”. O conferencista é também investigador do projeto PACUG para o volume sobre Património de Gaia no Mundo, dirigido pelo Professor Doutor Francisco Queiroz, para o qual produziu diversos textos sobre obras de Arte da autoria de artistas gaienses existentes no Brasil.
        
 “Jogo da Verdade” e“Partículas comensais”
No dia 6 de maio, sábado, no salão nobre da Ordem dos Médicos no Porto, pelas 17 horas o escritor Mário Cláudio fará uma conferência sobre “O Jogo da Verdade e a vocação confessional: Mário de Sá Carneiro e José Régio”; pelas 17,45 será apresentado o novo livro de Jaime Milheiro intitulado “Partículas Comensais”, com reflexões sobre o mesmo em tertúlia onde intervirão algumas conhecidas figuras do Porto e o autor.

Companhia de Fiação de Crestuma
No dia 25 de maio, pelas 21,30 horas, será apresentada no Solar Condes de Resende uma palestra pela historiadora Mestre Maria de Fátima Teixeira, investigadora do Gabinete de História, Arqueologia e Património da Confraria Queirosiana, sobre o tema “Os acionistas da Companhia de Fiação de Crestuma”, importante contributo para A História Empresarial da região feito a partir da sua dissertação de Mestrado recentemente apresentada na FLUP.

Outras

No passado dia 20 de abril na Entidade Regional do Turismo do Porto e Norte de Portugal localizada na praça Almeida Garrett no Porto, com instalações magnificamente disponíveis para satisfazerem todas as solicitações da procura turística, Dr. Melchior Moreira, seu presidente, com o patrocínio de uma conhecida marca de cosméticos, apresentou a “Rota das Camélias a Norte de Portugal Passeios Ultra Suave”, sintetizada numa brochura e num vídeo-filme com 76 locais distribuídos por 28 localidades famosos pela existência de notáveis exemplares daquelas flores.Trazidas do Oriente para Portugal pelo vice-rei D. João de Castro, aqui se aclimataram, passando desde então a ser flores emblemáticas da região, com a vantagem de florirem no inverno. Um desses locais emblemáticos é o Solar Condes de Resende com o seu Jardim das Camélias onde a estátua de Eça de Queirós de Hélder de Carvalho aguarda os visitantes.

Évora queirosiana
Nos próximos dias 20 e 21 de maio a Confraria Queirosiana promove uma visita ao Roteiro Queirosiano do Alentejo comemorativa dos 150 anos da passagem de Eça de Queirós, onde verdadeiramente se decidiu a sua vocação de escritor atendo à realidade do país e do mundo. Para além da visita aos principais monumentos e ao local onde existiu o jornal Distrito de Évora, guiada por José Manuel Tedim, está igualmente prevista a realização de uma sessão evocativa onde falarão o presidente da direção da Confraria Queirosiana, o seu vice-presidente Luís Manuel de Araújo recentemente regressado da sua anual vagem ao Egito e o mesário mor J. A. Gonçalves Guimarães que falará sobre os condiscípulos de Eça em Coimbra naturais da capital alentejana.
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 101 – terça-feira, 25 de abril de 2017; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685 ; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração: Quinta da Boeira, Arte e Cultura.