quarta-feira, 25 de abril de 2018

Eça & Outras

Património cultural: de geração para geração

         Celebrou-se no passado dia 18 de Abril o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, promovido pelo ICOMOS e em Portugal pela Direção Geral do Património Cultural, sob o lema “O Património Cultural: de geração para geração”, coincidente com a celebração de 2018 como Ano Europeu do Património Cultural. Como vem sendo habitual o Solar Condes de Resende associou-se a estas iniciativas, com a colaboração da associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana, por sua vez filiada na Federação Portuguesa dos Amigos de Museus de Portugal. Assim, para além do curso sobre o Património Cultural de Gaia, que aqui decorre até maio e do curso sobre Música & Músicos - Património Musical Português, com início em outubro próximo, este dia foi aqui celebrado sob o título «Solar Condes de Resende: de Casa Senhorial a Casa da História de Gaia». Nesse dia acolheu-se no auditóriotodos os interessados em conhecer a sua história ao longo dos tempos, explicada por Susana Guimarães, autora do livro A Quinta da Costa em Canelas, Vila Nova de Gaia (1766-1816). Família, Património e Casa.Vila Nova de Gaia: Confraria Queirosiana/FLUP/CMGaia, 2006, o qual resultou da sua dissertação de mestrado em História Local e Regional pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, enquanto o autor destas linhas falou aos presentes nas ações deste serviço em prol da História de Gaia através de ações próprias e do apoio à realização de dissertações de mestrado e teses de doutoramento já realizadas e de outras em curso, bem assim como da coordenação do projeto de levantamento do Património Cultural de Gaia (PACUG) que abrange muitas gerações de gaienses de há dois mil anos para cá.
         É nossa convicção de que não há contemporaneidade sem História, ainda que as atitudes perante o seu conhecimento sejam de assunção, de indiferença ou de negação. No entanto ela estará sempre presente, quer queiramos, quer não. Cada um de nós carrega memórias, recordações, vivências, leituras, experiências desse património escondido no ADN, nas crenças, nos gostos, nos desejos, nos afetos, nos ódios e mesmo nas indiferenças. Nenhuns deles são neutros, e mesmo os que os renegam ou vivam com aparente indiferença, normalmente têm neles ou sobre eles, ainda que não suficientemente claros, algo que querem esconder ou valorizar, ou enfrentar assuntos que gerações anteriores deixaram pendentes. Para além da nossa orfandade cósmica e existencial, se resolvidos os problemas imediatos da sobrevivência, carregamos, além deles, muitas outras angústias étnicas, familiares e sociais mal resolvidas ou por resolver, não só nos domínios das crenças, mas mesmo na afirmação da gentricidade possível, a que cada grande acontecimento histórico acrescenta balizamentos. Sendo certo que o nosso conhecimento do clã familiar, da terra a que pertencemos e do mundo que nos rodeia coincide com a ida para a escola primária, já hoje dificilmente teremos entre nós testemunhos vivos do que foi a criação do Entreposto de Gaia do Vinho do Porto, em 1926, ou da implantação do Estado Novo em 1928; já são poucos os que viveram os reflexos em Portugal da Guerra Civil de Espanha, da 2.ª Grande Guerra e da Bomba Atómica. Mas ainda são muitos os que viveram os tempos da chegada da Televisão, da Guerra da Coreia, das Guerras Coloniais e do Vietname, da emigração para França, da chegada à Lua e do 25 de Abril. Depois há toda uma geração, hoje com cinquenta anos, que não conheceu outro mundo senão o da Democracia, ainda que imperfeita e tateante, e a era da Esperança mundial, ensombrada pelos desastres ecológicos e pelo eclodir dos atuais fundamentalismos religiosos tribais. Esta é a realidade humana vivente que também ela deixará atrás de si um Património Cultural, que não se quer como a tralha do sótão da avozinha, ou o entulho da garagem do avô, mas como um conjunto de construções, edificações e criações, não apenas técnicas e vazias de conteúdos ou de sentidos, mas antes as que testemunhem aos vindouros, não apenas as desgraças recentes, materializadas em cemitérios militares, prisões, bidonvilles e chernobyles, que não queremos ver repetidos, mas sobretudo as excelências desta época nos domínios da ciência e da tecnologia, do cinema e do digital, do combate à fome e à doença, materializados na arte, na música, na escrita e nos happenings sociais, para que os ajudem a viver num mundo ainda melhor a que muitos de nós não chegarão, mas que queremos que exista, como garantia da possível eternidade humana.
         Mas se este é o Património Cultural do nosso tempo, que será a nossa herança para as gerações futuras, também nos são caros os testemunhos do passado remoto deste Pré-história surpreendentemente artística, o legado das civilizações dos grandes rios, ainda quando assentes no vergado dorso do esclavagismo, as lições do sossegado misticismo dos tempos medievais, tão cruéis e tão fanáticos, os olhos arregalados para a redondez da Terra e a multitude dos seus habitantes por parte dos navegadores da Expansão europeia, a descoberta da Liberdade individual ao ritmo das áreas de Mozart, os povos contra os impérios, a indústria contra o sol-a-sol campesino, as promessas messiânicas do marxismo contra o individualismo, a descoberta de que os pores-do-sol e os raiar das auroras, ainda que nem sempre iguais, ainda que sempre belos e desejados, podem ter todas as cores do prisma da ótica humana. Também esse Património está à nossa guarda e urge ser descoberto, estudado, protegido e divulgado. No que diz respeito a Vila Nova de Gaia, à região do Porto, ao norte do País, ao todo nacional, à irmandade lusófona e ao mundo que nos entrou pelo trilho que se fez estrada, vindo de leste ou do sul, pelo rio Douro abaixo ou pela sua barra, que atravessou do Minho para a margem esquerda em barcas ou através das pontes, vindos a pé, de barco, de carroça, de comboio, de automóvel ou de avião, é dessa multidão multissecular que o Solar Condes de Resende estuda, divulga e partilha o Património Cultural.
         Com Eça de Queirós repetimos: «a história é a consciência escrita da Humanidade» (Uma Campanha Alegre); «As ciências históricas são a base fecunda das ciências sociais» (Prosas Bárbaras). O Património é hoje o seu irmão mais novo. Mas não é um faitdivers para enfastiados turistas ou um chapéu para odemasiado sol do oportunismo que, como afinal em muitas outras atividades humanas, também sobre este tema do conhecimento se abate pela ação de charlatães vários. É a memória e a qualidade das criações humanas que não queremos ver destruídas ou negligenciadas, mas antes as passar acrescentadas de geração em geração. E compreenderá a nossa este desafio?

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria Queirosiana

 
J. Rentes de Carvalho
         Várias entidades nacionais estão este ano a celebrar os 50 anos da carreira literária do escritor gaiense J. Rentes de Carvalho, iniciada em 1968 com a publicação do romance Montedor. Assim, no passado dia 14 de abril, pelas 17 horas da tarde, na Biblioteca Municipal Almeida Garrett no Porto, promovido pela Porto Editora, decorreu a 65.ª edição de “Porto de Encontro. À conversa com escritores”, onde o escritor foi desafiado a falar sobre a sua vida e obra pelo jornalista Sérgio de Almeida e pelo escritor e editor da sua obra, Francisco José Viegas. Com uma casa completamente cheia de seus devotos admiradores, atendeu depois a longa fila de compradores de várias das edições presentes dos seus livros, nos quais foi escrevendo pacientes dedicatórias.
         Entretanto nos próximos dias 18 e 19 de maio será a vez de o município de Vila Nova de Gaia prestar homenagem a este escritor ali nascido no Monte dos Judeus a 15 de maio de 1930, que tão bem descreve no romance Ernestina, a mais interessante obra literária sobre o Centro Histórico de Gaia nos anos trinta do século passado. Do programa, entre vários outros momentos, consta uma sessão no Auditório Municipal no dia 18 e, no dia seguinte, no Solar Condes de Resende, haverá um capítulo extraordinário da Confraria Queirosiana que lhe é dedicado, a abertura de uma exposição sobre o seu espólio entregue a esta instituição, a inauguração de uma obra de Arte e um jantar de confraternização com canções da infância do escritor.

Livros e revistas
No passado dia 21 de abril, no Centro de Apoio Rural de Carrazeda de Ansiães na Festa de Abril, o escultor Hélder de Carvalho apresentou o seu mais recente livro intitulado Porque não existe um único olhar, edição Notutopic, um álbum de retratos desenhados onde se encontram, entre outros, Amadeu de Sousa Cardoso, Alexandre O’ Neil, Gustavo Maller e Almada Negreiros, bem assim como, entre outras, Paula Rego, MargueriteYourcenar, GeorgiaO’Keeffe e Simone de Beauvoir. Autor de muitas estátuas em bronze em vários largos e praças, de bustos em instituições públicas e privadas e de obras alegóricas em várias coleções, este Mestre com atelier em Vila Nova de Gaia, para além da paisagem do Douro e de Trás-os-Montes, tem-se também dedicado ao retrato desenhado, modelado ou esculpido, quer a partir do natural de personalidades vivas, quer a partir da reinterpretação de iconografia do passado, de grandes vultos da Cultura nacional e internacional. Muitas dessas interpretações têm sido capa do jornal As Artes entre As Letras e reunidos em outras publicações, como a agora apresentada.
Palestras e cursos
         Prosseguem os cursos e palestras organizados pela Confraria Queirosiana ou proferidas por diversos dos seus confrades. Assim, a 29 de março, na habitual palestra das últimas  quintas-feiras do mês no Solar Condes de Resende, J. A. Gonçalves Guimarães falou «A propósito de “Feiras Medievais”: história e recriação»; o mesmo conferencista, a 18 de abril, no Dia Internacional de Monumentos e Sítios falou, naquele mesmo local, sobre «O Solar Condes de Resende: de Casa Senhorial a Casa da História de Gaia» e nesse mesmo dia à noite nas instalações da Stella Maris na Foz do Douro, numa sessão organizada pela União de Freguesias de Aldoar, Foz do douro e Nevogilde, com acolaboração da Universidade portucalense infante D. Henrique e outras entidades, sobre o «Marechal Duque de Saldanha: “Ele poderia ter sido um rei”». No dia 20 falou sobre «Gaia? Vila Nova? Vila Nova de Gaia? A história local contada através dos forais», na Escola Secundária Almeida Garrett, numa sessão a propósito dos 500 anos do foral manuelino de Vila Nova de Gaia.
         Entretatanto amanhã, dia 26 de abril, pelas 21,30 horas, ainda no Solar Condes de Resende, Sérgio Veludo Coelho, professor da Escola Superior de Educação do Politécnico do Porto falará sobre «As Fortificações do Cerco do Porto em Gaia».
         Prosseguindo o curso sobre o Património Cultural de Gaia, na sessão de 7 de abril a Prof.ª Doutora Teresa Soeiro deu uma aula sobre «Património Etnográfico e Imaterial de Gaia» e no dia 21 o prof. Doutor J. A. Rio Fernandes falou sobre «Património de Gaia no século XX». O curso terminará no próximo dis 5 de maio com uma aula sobre Legislação do Património pelo Prof. Dr. Carlos Medeiros. No próimo ano letivo o curso terá por tema Música & Músicos: aspetos do Património Musical Português.
Eça na Suiça
         No passado dia 23, na Unidade de Português da Faculdade de Letras da Universidade de Genebra, o Professor Doutor Carlos Reis, reputado investigador e divulgador da vida e obra queirosianas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, apresentou uma conferência intitulada «Lesinfluencesétrangèressurl’oeuvre d’ Eça de Queirós», integrada no curso publico «L’expression de l’altéritédanslesculturesdu monde lusophone».

Os Maias, 130 anos
         Nos 130 anos da publicação de Os Maias, o Centro Cultural Olga Cadaval, numa coprodução com a ÉTER – Produção Cultural, apresentou no passado dia 13 de abril no auditório Jorge Sampaio em Sintra, uma versão dramatúrgica do romance queirosiano, com adaptação de Miguel Real e Filomena Oliveira, e encenação desta última, com o apoio da Câmara Municipal de Sintra.

Corpos gerentes da FAMP com o diretor do Solar Condes de Resende

Federação dos Amigos dos Museus de Portugal
      No passado dia 14 de abril decorreu no auditório do Solar Condes de Resende a assembleia geral anual da Federação dos Amigos dos Museus de Portugal (FAMP), tendo os seus corpos gerentes tendo sido recebidos pela vereadora da Cultura e da Programação Cultural da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, Eng.ª Paula Carvalhal, pelo diretor do Solar e mesário-mor da Confraria Queirosiana e pela direção dos Amigos do Solar Condes de Resende, que os obsequiaram com um almoço queirosiano no bar desta Casa. Antes da ordem de trabalhos foi entregue o prémio Professor Reynaldo dos Santos 2016, atribuído à Sociedade de Amigos do Museu Francisco Tavares de Proença Júnior, de Castelo Branco, pela sua exposição evocativa do centenário da morte do fundador, ex-aqueo com a mostra sobre Ópera Chinesa candidatada pelo Grupo de Amigos do Museu do Oriente, em Lisboa. Seguidamente decorreram os trabalhos da assembleia para aprovação do relatório e contas, referente a 2017 e programa de atividades e orçamento para 2018.

Viagem ao Egito
         Nas últimas férias da Páscoa o Instituto Oriental da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa levou a cabo a sua 18.ª visita de estudo ao Egito faraónico com a coordenação científica do Prof. Doutor Luís Manuel de Araújo. Face ao sucesso da iniciativa, a mesma entidade organizará entre 21e 28 de agosto próximos uma nova visita, em colaboração com a agência Novas Fronteiras. Para além dos alunos e docentes daquela Faculdade a visita poderá estar disponível para outros interessados, que assim poderão percorrer os monumentos do país do Nilo, de avião, de barco e em balão, orientados por aquele egiptólogo, autor de numerosa bibliografia sobre aquela fascinante civilização que tanto deslumbrou Eça de Queirós quando o visitou em 1869.                      
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 116 – quarta-feira, 25 de abril de 2018; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração Celeste Pinho.

domingo, 25 de março de 2018

Eça & Outras



A. da Silva Fernandes
No 80º aniversário de A. da Silva Fernandes
A Associação dos Amigos de Pereiros
e a Confraria Queirosiana

Existem por esse Portugal fora associações de cidadãos com os mais diversos fins, a maior parte das quais vivendo de uma impagável generosidade dos seus corpos gerentes, no que diz respeito a tempo despendido, dedicação, capacidade de relacionamento, disposição para gastarem dinheiro do próprio bolso para resolver situações que qualquer contabilista não entende ou não abona, e se muitas delas têm propósitos tolos ou de «gato (ou rato) escondido com o rabo de fora», ou servem simplesmente para qualquer pequena promoção pessoal ou de grupo fechado, outras há que têm objetivos úteis, sensatos, simpáticos, exequíveis, que deixam marcas positivas no terreno e na vida das pessoas que elas servem ou que com elas contatam. Tal é o caso da Associação dos Amigos de Pereiros, que, muito para além dos generosos propósitos estatutários, tem como finalidade maior o impedir que a aldeia e freguesia do concelho de S. João da Pesqueira que lhe deu o nome, morra, isto é, deixe de ter habitantes, ou que os que resistem deixem de ter as referências de uma comunidade centenária onde nasceram pessoas que se distinguiram em outras paragens, ou simplesmente ali viveram um dia-a-dia sossegado, criando uma paisagem que chegou aos dias de hoje como o produto dos saberes de muitas gerações.
Por um conjunto de circunstâncias convergentes, tendo o Gabinete de História, Arqueologia e Património da associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana concluído os trabalhos de intervenção arqueológica e patrimonial na Quinta da Ervamoira, no Vale do Côa em 2004, logo no ano seguinte, com o apoio daquela associação e o patrocínio da Câmara Municipal pesqueirense, iniciou o levantamento do património local, com especial incidência nos Pereiros, onde a equipa passou a ficar alojada durante os trabalhos no emblemático santuário de S. Salvador do Mundo e no Vale de Galegos, Trevões. Outras ações complementares incidiram na valorização e divulgação das grandes figuras internacionais ligadas à região, como o Marquês de Soveral e o Barão de Forrester, o inventário e estudo do património religioso, e a sua rentabilização cultural e turística através de programas que então se adivinhavam com futuro, mas que têm teimado em chegar, com a agravante de que Pereiros não pende para o vale do Douro, mas sim para o planalto beirão, para o rio Torto, ali à margem da estrada 222, que começa na avenida da República em Vila Nova de Gaia e vai até à fronteira com a Espanha. Por esse motivo, se no roteiro turístico do Douro outros podem teimar, nesta aldeia só lhe resta a sua associação.
Ainda sem sequer existir um protocolo entre a Associação dos Amigos de Pereiros e a Confraria Queirosiana, que mais tarde viria a ser celebrado, logo a partir de 2005 a colaboração entre as duas instituições traduziu-se na organização de visitas à região e às suas instituições mais representativas, entremeada de palestras, conferências e participação em congressos de arqueologia, património, gastronomia, enologia e turismo, escavações arqueológicas e publicação de livros e artigos, bem assim como o apoio e colaboração a várias edições daquela associação que também se assumiu como entidade editora local e regional.
Eça da Queirós talvez tenha algum dia estado na Pesqueira, na Quinta de Cidrô, do seu amigo Luís Soveral, o futuro marquês desse título, mais tarde seu superior hierárquico como embaixador em Londres e ministro dos Negócios Estrangeiros. Jaime Batalha Reis esteve aí e de tal deixou registo escrito. Já são três “Vencidos da Vida”. Mas, pelo menos é certo que Eça passou na estação ferroviária da Ferradosa a caminho de Salamanca ou de regresso pela linha do Douro, como descreveu em A Cidade e as Serras: «Rolávamos na vertente de uma serra, sobre penhascos que desabam até largos socalcos cultivados de vinhedo. Em baixo, numa esplanada, branquejava uma casa nobre, de opulento repouso, com a capelinha muito caiada entre um laranjal maduro. Pelo rio, onde a água turva e tarda nem se quebrava contra as rochas, descia com a vela cheia, um barco lento carregado de pipas». Esta descrição assenta como uma luva à paisagem pesqueirense, de onde bebeu vinho precioso daquela quinta do seu confrade ali nascido. Por isso também a Pesqueira é terra do universo queirosiano e se não fora por outros motivos, estes chegavam para aquelas relações institucionais. Procuramos relembrá-los e revisitá-los com diversos grupos de estudiosos do Douro, e convidando todos os anos a estar presente no Solar Condes de Resende na Feira de S. Martinho a vender os mimos da produção local, a D. Lídia do restaurante Ernestus, o único existente na aldeia e onde não se pode ir com pressas apreciar o seu inigualável fumeiro.
Pela “equipa dos Pereiros” da Confraria Queirosiana passaram, entre outros, como arqueólogo e professor de Património o autor destas linhas, e ainda Paulo Talhadas dos Santos, professor de Biologia; Maria dos Anjos Ribeiro, professora de Geologia; Nuno Resende, professor de História da Arte; Paulo Alves, botânico; Eva Baptista e Maria de Fátima Teixeira, patrimoniólogas e Joana Leite, arqueóloga. Os resultados dos seus trabalhos estão disponíveis para serem consultados e continuados em variadíssimas publicações académicas e de divulgação. E em toda esta ação será sempre de recordar o carinho e a prestabilidade da população local e o apoio entusiasta do Eng.º António José Lima Costa, então presidente da câmara local e hoje nosso confrade de honra e atento deputado da sua região na Assembleia da República, bem assim como da saudosa professora Maria do Céu Beires, então vereadora do pelouro da Cultura.
Mas por trás de tudo isto esteve sempre a ação persistente, empenhada, preocupada, ilimitada, criativa, de enorme amor pelo seu município de S. João da Pesqueira e pelos Pereiros, a aldeia natal de seus antepassados, do presidente da Associação, o Dr. Alberto Júlio da Silva Fernandes, que a Confraria Queirosiana igualmente tem como confrade de honra e que saúda na ocasião dos seus oitenta anos atívos e profícuos.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria Queirosiana

Eça como segundo nome próprio
         O nome Eça foi recentemente admitido pelo Instituto dos Registos e Notariado como segundo vocábulo de nome próprio num caso apresentado pelos pais para registo de uma criança do sexo masculino. Para tal terá contribuído um parecer emitido pela Confraria Queirosiana.
 
Mestre Olga Cavaleiro
Mestrado em Alimentação

         No passado dia 26 de janeiro na sala Silva Dias da Universidade de Coimbra, a presidente da Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas, Dr.ª Olga Alexandre Gonçalves Cavaleiro, apresentou-se à prova de discussão da dissertação para obtenção do grau de Mestre intitulada «Portugal Gastronómico. A cozinha Portuguesa e as Cozinhas Regionais» elaborada no âmbito do Mestrado em Alimentação, na especialidade de Fontes, Cultura e Sociedade, orientada pelo Prof. Doutor Norberto Nuno Pinto dos Santos, que foi vogal do júri, bem assim como a Prof.ª Doutora Claudete Carla Oliveira Moreira, tendo sido presidente do júri a Professora Doutora Maria José de Azevedo Santos, todos da Faculdade de Letras daquela universidade. A candidata foi aprovada com dezanove valores. A Mesa da Confraria Queirosiana felicita a nova Mestre pelo brilhantismo das suas provas e pela pertinência do tema dos seus estudos em História e Tecnologia da Gastronomia Portuguesa.

Livros e revistas


As Artes entre as Letras
         O número 213 deste jornal datado de 28 de fevereiro passado, apresenta colaboração vária de confrades queirosianos. Além do editorial “Entre Sentidos” da diretora Nassalete Miranda (pág. 2), Guilherme d’ Oliveira Martins escreveu sobre “Levi Guerra – Humanista dos dias de hoje “ (p. 3), a que se segue a entrevista de J. A. Gonçalves Guimarães a “J. Rentes de Carvalho entre Gaia, Amsterdam e Estevais do Mogadouro (p. 4 a 6), com chamada e fotografia à primeira página. Na 18 a habitual página Eça & Outras, da Confraria Queirosiana, desta vez com “O haxixe na vida de Eça e de outras pessoas”, de J. A. Gonçalves Guimarães, o tal que não sabe escrever por medida e, por isso, por gentileza do jornal, a “página” ocupa também a 19, ainda com noticia das comemorações do Foral de Gaia de 1518 e do curso de Genealogia e História da Família que decorreu no Solar Condes de Resende nos passados dias 16 e 17 de março. Um número verdadeiramente queirosiano.

Palestras, cursos, congressos e outros eventos

Inovação Pedagógica
         No passado dia 23 de fevereiro na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, no 2.º Encontro INOVAR – “Roteiros da inovação pedagógica: escolas e experiências de referência em Portugal no século XX”, entre outros oradores falaram Eva Baptista sobre “O papel educativo da Associação de Creches de Santa Marinha, Vila Nova de Gaia” e José António Afonso sobre “A presença do protestantismo em Vila Nova de Gaia: das Escolas ao Associativismo (1868-2015).

Fórum de Avintes
         Decorreu nos passados dias 23 e 24 o 28.º Fórum de Avintes na sede da Junta desta freguesia gaiense. Entre os vários palestrantes falaram Abel Barros sobre «Desporto e as suas origens: o Parque Joaquim Lopes na Gandra» e J. A. Gonçalves Guimarães sobre «Moradores de Avintes no século XVI: a propósito do Foral de Gaia de 1518».

Palestras escolares
No passado dia 26 de fevereiro no Colégio da Bonança, Vila Nova de Gaia, integrado no programa FantasLíngua XI, J. A. Gonçalves Guimarães falou sobre «A linguagem do Foral de Gaia de 1518» e no dia seguinte, para os alunos dos cursos profissionais de Turismo e Hotelaria do Agrupamento de Escolas de Canelas, sobre «Feiras Medievais: origens, finalidades e evolução».

A Quinta da Boeira em Manchester
        
J. A. Gonçalves Guimarães confrade da FCBP
Nos dias 1 a 3 de março passados a Quinta Boeira, Arte e Cultura, Vila Nova de Gaia, promoveu mais uma sessão de divulgação de produtos portugueses de referência, desta vez em Manchester. Da comitiva, para além dos administradores e pessoal daquela empresa gaiense, liderados por Albino Jorge, faziam parte diversas confrarias enófilas, como a do Vinho do Porto, do Verde, do Carcavelos, do Ribatejo, e outras, o artesão Albino Costa, a TVI, vários jornais e revistas portugueses, e a Confraria Queirosiana representada pelo seu mesário-mor. Esta embaixada de cultura, sabores e tradições ficou alojada no famoso Midland Hotel, fundado em 1903 no centro da cidade, e desde logo ligado á criação da Rolls-Roice e onde se alojaram ao longo dos tempos diversas personalidades das Artes, como The Beatles. Com a presença de uma dezena de exemplares da coleção de modelos de naus e galeões da autoria daquele artesão, num salão deste hotel decorreu a sessão de abertura desta ação, tendo começado por uma breve introdução histórica pelo mesário-mor da Confraria Queirosiana, a que se seguiu uma prova comentada de 200 anos de vinho do Porto comentada pela enóloga Dr.ª Helena Teixeira, e depois a entronização pela Federação Portuguesa das Confrarias Báquicas de Portugal, como seus membros honorários, de José Leite, CEO da Marca Transitários; César Pereira CEO da Gama Consumer; Vanessa Bond, representante da Quinta da Boeira em Inglaterra; J. A. Gonçalves Guimarães, historiador; Luís Segadães, presidente das 7 Maravilhas de Portugal; Chris Rostron, presidente da Associação Consular em Manchester e Jorge Cruz, cônsul geral de Portugal nesta cidade. De tarde esteve patente no mesmo salão, quer ao público quer a lojas gourmet, importadores e restaurantes, uma exposição e prova de vinhos e queijos portugueses de várias regiões.
         O mesário-mor da Confraria Queirosiana teve ainda oportunidade de visitar a magnificente Biblioteca Central, um edifício inspirado no Panteão de Roma da autoria do arquiteto Vincent Harris (1876-1971), mesmo em frente do Midland Hotel, com um funcionamento completamente atraente para os dias de hoje, e o Museu da Universidade de Manchester que exibe uma coleção universalista do século XIX (como a Coleção Marciano Azuaga), exposta de forma atraente, didática e atualizada para os dias de hoje.

Sociedade de Geografia de Lisboa
         O egiptólogo Luís Manuel de Araújo, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e vice-presidente da direção da ASCR-CQ, no passado dia 7 de março proferiu no Auditório Adriano Moreira da SGL uma conferência sobre “Oriente Antigo no Ocidente – do Nilo ao Tejo”, integrada num ciclo sobre Oriente Antigo no Ocidente, organizada pela Secção de Arqueologia daquela centenária instituição.

Retificações
No texto da página Eça & Outras anterior (25 de fevereiro), intitulado “E Sexe des Anjes”, onde se lê: «…e só um pagão como o escultor José Rodrigues se lembraria de tal para modelar uma delas e pespegá-la na margem do rio Douro», deveria ler-se:  «…e só um pagão como o escultor José Rodrigues se lembraria de tal para modelar uma delas, depois de Irene Vilar ter criado o seu Anjo Mensageiro muito mais ortodoxo ou, pelo menos, andrógino, escultura dourada pespegada na margem do rio Douro». Agradecemos ao caro sócio António Emílio Rocha os dados para a retificação.
            Por nos ter sido pedido, informamos que esta página Eça & Outras, já vai na sua terceira série, publicada no seguinte contexto:
2001, dezembro – 1.ª circular para a criação de uma Associação de Amigos do Solar Condes de Resende;
2002.11.22 – Assembleia Geral constituinte da ASCR – Confraria Queirosiana;
2003.01.31 – escritura notarial da ASCR-CQ; n.º 1 da página Eça & Outras, uma folha A4, impressa só de um lado, enviada por e-mail.
I.ª série, n.os 1 a 9, de 31 de janeiro de 2003 a 1 de junho de 2004.
II.ª série, publicada em uma página A3 de O Primeiro de Janeiro ao dia 25 de cada mês, n.os 1 a 46, de 25 de novembro de 2004 a 25 de agosto de 2008, por acordo com a diretora Dr.ª Nassalete Miranda.
III.ª série, n.º 1, de 25 de setembro de 2008, publicada em eca-e-outrasblogspot.com, a partir do n.º 13, de 25 de setembro de 2009 também parcialmente em uma página do jornal As Artes Entre as Letras, por acordo com a diretora acima referida e até à atualidade, num total de 170 páginas publicadas nas três séries. Como entretanto ocorreram alguns lapsos na numeração, informamos que esta página é a n.º 115 desta última série.

Anexo: Bibliografia produzida na sequência da colaboração entre a Confraria Queirosiana e a Associação dos Amigos de Pereiros:

CARDOSO, António Barros (2009) - «Marquês de Soveral - Homem do Douro e do Mundo -  Son of the Douro,Man of the World», recensão crítica. In Revista da Faculdade de Letras. História, III série, vol. 10. Porto: Universidade/Faculdade de Letras/Departamento de História, p. 205-207.
FERNANDES, A. da Silva (2006) – O Rabelo. S. João da Pesqueira: Associação dos Amigos de Pereiros.
FERNANDES, A. da Silva (2013) – Registos da Aldeia: orações, rezas e benzeduras. S. João da Pesqueira: Associação dos Amigos de Pereiros.
FERNANDES, A. Silva; GUIMARÃES, J. A. Gonçalves; RESENDE, Nuno (2011) - Pereiros. S. João da Pesqueira. S. João da Pesqueira: Associação dos Amigos de Pereiros, 2011, 192 p..
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2001) - «A Quinta e o Museu de Ervamoira: da Arqueologia ao Turismo Cultural no Vale do Côa». In Turismo em espaço rural. Porto: Vida Económica/ Associação Portuguesa de Management/Associação dos Amigos de Pereiros, p. 117-123.
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2006a) - «Um “Vencido da Vida” - Notas biográficas sobre Luís Pinto de Soveral (marquês de Soveral, 1853-1922)». In Revista de Portugal, n.º 3, 2006, Vila Nova de Gaia: Confraria Queirosiana/Edições Gailivro, p. 22-36.
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2006b) - «Produtos alimentares da Beira Douro no século XVI: persistências e abandonos gastronómicos da região». In Douro Estudos & Documentos, nº 21, 2006. Porto: GEHVID, p. 107-130.
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2006c) - «A Regata de Barcos Rabelos no dia de S. João». In FERNANDES, A. da Silva (2006) – O Rabelo. S. João da Pesqueira: Associação dos Amigos de Pereiros, p. 101-111.
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves, coordenação, texto e fotografia (2007) - São Salvador do Mundo santuário duriense (em colaboração com Eva Baptista, Maria de Fátima Teixeira, Maria dos Anjos Ribeiro, Paulo Alves e Paulo Talhadas dos Santos). Vila Nova de Gaia: Município de São João da Pesqueira/Edições Gailivro, 144 p..
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2008a) - Marquês de Soveral, Homem do Douro e do Mundo/The Marquis de Soveral, Son of the Douro, Man of the World, versão inglesa de Karen Bennett. Vila Nova de Gaia: Município de São João da Pesqueira/Edições Gailivro, 220 p..
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2008b) - «O santuário de São Salvador do Mundo de São João da Pesqueira. Estudo e Proposta de Valorização Patrimonial: I – Arqueologia. In Actas das sessões do III Congresso de Arqueologia de Trás-os-Montes, Alto Douro e Beira Interior (2006), vol. 04. Vila Nova de Foz Côa: PAVC, p. 154-160.
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2008c) - «”O sítio mais romântico e importante de todo o Rio Douro” ou S. João da Pesqueira pela mão do Barão de Forrester». In O Barão de Forrester Sessão Evocativa, Outubro de 2008. S. João da Pesqueira, Associação dos Amigos de Pereiros, p. 5-12.
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2008d) - «O Barão de Forrester e a Arqueologia Duriense». In Barão de Forrester Razão e Sentimento. Uma Histórias do Douro (1831-1861). Régua: Museu do Douro, 2008, p. 134-141.
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2009a) - «Para uma arqueologia da paisagem duriense – S. Salvador do Mundo e Ribeira de Galegos em S. João da Pesqueira: proposta de rentabilização para fins turísticos». In Actas das I Jornadas Internacionais sobre Enoturismo e Turismo em Espaço Rural. Porto/Maia: APHVIN/GEHVID/ISMAI, 2009, p. 111-128.
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2009b) - «Baron Forrester and the Archaeology of the Douro».  In Baron Forrester, Sense and Sensibility. A Story of the Douro 1831-1861. Peso da Régua: Museu do Douro, 2009, p. 134-141.
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2009c) - «D. Carlos e o Marquês de Soveral: o Soberano e o Diplomata». In XVIII Colóquio de História Militar. Política Diplomática, Militar e Social do Reinado D. Carlos no centenário da sua morte. Actas. Lisboa: Comissão Portuguesa de História Militar, 2009, p. 129-146.
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2011a) - «Gastronomia no Douro. Produtos alimentares da Beira Douro no século XVI. Persistências e abandonos gastronómicos da região». In O Rabelo, S. João da Pesqueira: Douro em Mim, 2011, p. 11-27.
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2011b) - «Da Geografia à Toponímia: caracterização da Paisagem de Pereiros». In FERNANDES, A. Silva; Guimarães, J. A. Gonçalves; RESENDE, Nuno (2011) - Pereiros. S. João da Pesqueira. S. João da Pesqueira: Associação dos Amigos de Pereiros, 2011, p. 17-46.
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2013a) - «Ermo de São Salvador do Mundo, santuário duriense». In Douro, Vinho, História & Património. Wine, History and Heritage, n.º 2, Porto, APHVIN/GEHVID, 2013, p. 155-182.
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2013b) - «O Ermo de São Salvador do Mundo, santuário duriense». In O Rabelo, Outubro de 2013, p. 06-23.
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves (2013c) - «Capelas, pequenos monumentos à humana orfandade», prefácio a RESENDE, Nuno - Capela de Santo António. Pereiros - S. João da Pesqueira. S. João da Pesqueira: Associação dos Amigos de Pereiros, p. 5/6.
GUIMARÃES, J. A. Gonçalves; TEIXEIRA, Maria de Fátima; OLIVEIRA, Artur Jorge Fernandes (2008) - «Intervenção Arqueológica em São Salvador do Mundo, São João da Pesqueira. In Côavisão - Cultura e Ciência, nº 10, p. 175-187.
RESENDE, Nuno (2011) - «A Paróquia do Santíssimo Salvador de Pereiros». In FERNANDES, A. Silva; Guimarães, J. A. Gonçalves; RESENDE, Nuno (2011) - Pereiros. S. João da Pesqueira. S. João da Pesqueira: Associação dos Amigos de Pereiros, 2011, p. 47-88.
RESENDE, Nuno (2013) - Capela de Santo António. Pereiros - S. João da Pesqueira. S. João da Pesqueira: Associação dos Amigos de Pereiros, 56 p..
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 115 – domingo, 25 de março de 2018; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Eça & Outras


E Sexe des Anjes
Permitam que vos reconte uma velha estória: a 29 de maio de 1453, uma quinta-feira, o sultão Maomet II conquistou Constantinopla para o Império Otomano, acabando assim, sem saber, com a Idade Média europeia e, mais concretamente, com o Império Romano do Oriente, ou Império Bizantino. Diz-se que enquanto a cidade se debatia na angústia de ser tomada, pilhada e de mudar de governo e até de religião dominante, os seus clérigos, obviamente preocupados com o que é eterno e não com o ocasional, ou mesmo não querendo deixar de dar continuidade às civilizadas subtilezas de um sossegado debate teológico, discutiam nada mais nada menos do que o sexo dos anjos, ou seja, que nestes seres, celestes embora, qual seria, se não tanto a sua anatomia sexual, obviamente não reprodutora pois são criações divinas, no mínimo qual seria a sua inclinação (orientação, diríamos hoje), se masculina, se feminina, que qualquer outra não seria de considerar, pois seria certamente sugestão infiltrada do “anjo caído”, do mafarrico, do Diabo, que com certeza só a insinuaria, como habitualmente, por pirraça, por brincalhotice, por desrespeito para com os demais entes divinos ou divinizados. A questão não seria tanto o saber-se se os anjos se davam a práticas condenáveis fora da regulamentação canónica, se observavam celibato, se poderiam casar, se as suas revoadas preconizavam autênticos woodstocks celestiais, mas já então como linguística e literariamente se deveriam referir, porque, se assexuados, não fazia qualquer sentido continuar a chamar-lhes o/os anjo/anjos, no masculino, e quanto a anja/anjas, com toda a prudência e cautelas que as religiões sempre têm em relação a tudo que cheire a mulher, não seriam de considerar, e só um pagão como o escultor José Rodrigues se lembraria de tal para modelar uma delas e pespegá-la na margem do rio Douro junto à sua foz já neste nosso tempo de tanta hesitação teológica, perdidas que estão as diretrizes do Concílio de Trento e quando já não se queimam hereges por engano desde Santa Joana d’Arc.
            O facto de todas as religiões terem anjos, uns seres que voam (para isso têm asas) indiferentes à existência ou não de oxigénio, do magnetismo terrestre, da rarefação intergalática e de outras banalidades da ciência humana, tal não ajuda muito, pois, como a Antropologia e a História têm registado, as religiões não são todas iguais, umas são até mais verdadeiras do que outras, já não falando naquelas que são exclusivas de pequenas tribos eleitas. Curiosamente os anjos de todas as religiões, estava eu tentado (Tentado, ouviram?) a dizer, que são todos iguais, ou muitíssimo parecidos, às vezes até com o mesmo nome, com a mesma performance, o que tem levado os ovnilófilos a quererem filiá-los a todos num só sindicato de extra-terrestres. Mas já no distante século IV-V, numa precocíssima tentativa enciclopédica avant la lettre, o Pseudo-Dionísio, o Areopagita, na sua obra Hierarquia Celeste se deu ao trabalho de os classificar em nove coros e três tríades. Mas quanto ao sexo deles, nada! Só no século XVIII o Marquês de Sade, numa grosseria que aqui não vou, por decência, repetir, tentou resolver a questão durante os trinta e seis anos de cadeia que três regimes políticos diferentes lhe ofereceram para ter tempo de filosofar sobre este e outros assuntos. Mas a sua proposta não tem sido, geralmente, considerada.
            Com esta falta de ciência emanada das autoridades competentes, não admira que ao longo dos tempos fossem proliferando lendas e desvios sociais e literários, como o mito da mulher-anjo, muito querido dos literatos românticos do século XIX, que nem o conclave bizantino, nem jamais qualquer outro, autorizaram ou sequer consideraram, sendo obviamente mais uma insinuação mafarríquica, como muito bem descreveu Eça de Queirós em O Mandarim, quando o Diabo elucida Teodoro sobre a diferença entre Mulheres e Fêmeas, e que para tal compreender, é preciso dinheiro, pois «não é com o troco de uma placa honesta de cinco tostões que se pagam as contas destes querubins…». Querubinas, deveria ter Eça escrito, já se vê.
            Dir-me-ão entretanto vosselências: mas o que é que isso interessa nos dias de hoje, desde promissor século XXI em que já vamos a caminho de Marte sem ter ainda encontrado nenhum anjo pelo caminho? Ou andam muito distraídos, ou realmente chumbaram no power point das “Novas Oportunidades”. O sexo dos anjos é hoje um assunto atualíssimo: o Dr. Rui Rio trouxe-o à baila no congresso do seu partido como um tarrenego de possibilidade governativa para resolver os problemas do país a médio prazo, e D. Manuel Clemente parece que sugeriu que os recasados (que não constam, ainda e por enquanto, nas categorias celestes) deixassem crescer as asas e passassem a ser anjinhos bizantinos. E numa época em que os turcos e muitos outros povos islâmicos cercam de novo a Constantinopla europeia com «a presença angustiosa das misérias humanas, tanto velho sem lar, tanta criancinha sem pão, e a incapacidade ou indiferença de monarquias e repúblicas para realizar a única obra urgente do mundo “a casa para todos, o pão para todos”…» (Eça de Queirós, A Rainha), não há dúvida de que o sexo dos anjos, ou o dos recasados, são temas para continuarmos a divagar enquanto nos cai a realidade em cima.
            Mas falta-nos ainda considerar outros bonzos bizantinos, os militantes da igualdade de género a todo o vapor. Não se tendo eles ainda virado para a questão do sexo dos anjos, aqui lhes ofereço uma solução digna de ser apresentada para aclamação numa respeitabilíssima academia, adianto-me a propor que enquanto se não decide de vez se os ditos são masculinos, femininos, neutros, transexuais ou outra coisa qualquer, que em vez de “o sexo dos anjos” se passe a escrever e a dizer “e sexe des anjes”, para assim não divulgarmos distraidamente opções machistas ou preconceituosas. E obviamente “Es Lusiades” e até “E Biblie” e “E Corãe”, além de “E Diárie de Repúblice” e, the last but not the least “Es Artes Entre Es Letres”. Não, não é catalão, nem qualquer crioulo caribenho; é mais a linguagem de um dialeto minoritário em Portugal, o tate-bitate, muito conhecido dos especialistas em Ensino.
Eu, cá por mim, vou continuar a ser Joaquim António.  
           
J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria

Livros e revistas

Preparado pelo Professor Doutor Carlos Reis e pela Prof.ª Doutora Maria do Rosário Cunha, respetivamente coordenador e membro do Centro de Literatura Portuguesa da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, foi apresentado pela Professora Doutora Paula Morão, catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no passado dia 21 de fevereiro na Biblioteca da Imprensa Nacional em Lisboa um novo volume da Edição Crítica de Eça de Queirós, desta vez Os Maias. Episódios da Vida Romântica. Tendo já sido publicados nesta série diversos volumes da obra do escritor, estas publicações visam reconduzir os textos à sua primitiva ou definitiva pena, confrontando os originais que existam e libertando-os de gralhas, erros, acrescentos e emendas ou mesmo supressões alheias ao escritor.

A Conrad Editora do Brasil, L.da, de S. Paulo, publicou em 2007 uma notável versão de A Relíquia de Eça de Queirós ilustrada por Marcatti, a qual lhe foi sugerida em 2005 pelo editor Alexandre Linares, que para tal lhe envia uma edição do romance publicado com introdução e notas de Augusto Pissarra pela editora Ediouro. Considerado um dos mais geniais artistas brasileiros de Banda Desenhada, Marcatti confessa no fim desta obra: «Me desculpem a leviandade, mas sinto como se tivéssemos nos tornado amigos e guardo comigo a sensação de termos feito o trabalho a quatro mãos». Temos assim mais um estimável contributo brasileiro para a ilustração e divulgação da obra do escritor. Esta edição abre com um texto introdutório de Eduardo Montechi Valladares intitulado «Eça de Queiroz e o Anticlericalismo».

A editora Guerra & Paz lançou a 6 de fevereiro passado uma nova edição de Adão e Eva no Paraíso, seguido de o Senhor Diabo e outros contos de Eça de Queirós. Se no primeiro, muito para além da maestria literária, o escritor mostra o quanto estava atualizado face às mais recentes descobertas e elaborações teóricas do seu tempo sobre a Pré-história e a marcha da Humanidade (e já agora também sobre as parlapatices dos mitómanos, que ainda hoje estão vivos e ativos), para além de “brincar” com questões que ainda hoje fazem parte das nossas interrogações. No segundo, tal como a outros escritores da época, a figura do Diabo, o anjo caído por ser curioso e contestatário, sempre o fascinou e daí o dar-lhe um protagonismo explícito, em obras como “O Mandarim”, ou mais discreto em muitos outros dos seus textos. Os contos de Eça, como de resto toda a sua obra, continuam pois a surpreender-nos.

A Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas tem uma revista digital com o título Nona Arte, de que é diretora a Dr.ª Olga Cavaleiro. O número 44, de setembro de 2017 publicou uma entrevista com a Confraria Queirosiana com ilustrações sobre as suas atividades e publicações, além de artigos sobre “Sabores de Outono” de Olga Cavaleiro, textos sobre as Confrarias dos vinhos de Carcavelos, do Porto e Arinto de Bucelas, e ainda noticiário sobre «Encontro de Confrarias em Santarém e Ovação ao Pote dos Sabores de Portugal» e representações da FPCG. O n.º 45, de dezembro de 2017, apresenta um artigo de Olga Cavaleiro sobre a Matança do Porco e um outro de José Manuel de Paiva Simões sobre a Confraria dos Amigos da Geropiga de Moinhos e Arredores, além de outros sobre a Assembleia Geral ordinária da federação, Gastronomia sustentável, XIII Congresso dos Cozinheiros e representações da FPCG.

Temos presente a edição do n.º 10 da 2ª série da revista Cadernos Culturais Lumiar – Olivais - Telheiras, dirigido por Fernando Andrade Lemos, presidente do Centro Cultural Eça de Queiroz, em Lisboa, dedicado a «Ralph Delgado, historiador dos Olivais e de Angola, jornalista e publicista». Com 392 páginas apresenta os textos das comunicações apresentadas no XXII Colóquio dos Olivais, Lumiar e Telheiras, nomeadamente as comunicações do seu diretor sobre «Eça de Queiroz e o Lumiar» (p. 142); «Uma possível chave para uma chave real ou contributo para a simbólica da Igreja de Nossa Senhora da Porta do Céu em Telheiras – Lisboa» (p.170, trabalho coletivo); «Um poeta popular de Telheiras» (p. 180, com Ana Maria Costa e Marília Abel); «Lembrando Eduardo Sucena» (p. 196); «Os Oito Tritões» (p. 198, com Eduardo Sucena; «A melancolia como chave da leitura da obra de Cesário Verde» (p. 318, com João de Araújo Correia); « O retábulo da Infanta Dona Maria na Igreja da Luz, em Lisboa» (p. 366, com Carlos Revez Inácio e José António Silva, além de muitos outros autores.

Nascido em 2011 no facebook, o Grupo Saudade Perpétua agrupa historiadores profissionais e memorialistas que se dedicam às «vertentes estética, cultural e social do Romantismo em Portugal», tendo realizado o seu 1.º Colóquio em Vila Nova de Gaia e no Porto em Junho de 2016, cujas atas on line foram agora apresentadas numa edição do CEPESE – Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade. Com coordenação editorial de Francisco Queiroz e apoio de Ricardo Charters d’ Azevedo, intitulado Arte, Cultura e Património. Actas do 1.º Colóquio “Saudade Perpétua”, contém nas suas 950 páginas diversas comunicações sobre o tema, nomeadamente de Ricardo Charters d’ Azevedo «Códigos de bom-tom ou civilidade» (pág. 134) e de Susana Moncóvio «Maria da Glória da Fonseca Vasconcelos (n. 1831) e Leonor Augusta Gonçalves Pinto (1849-1931), elementos de uma família de artistas ativos no Porto e em Vila Nova de Gaia entre o século XVIII e o século XX (p. 424). 

Comemorações
25 anos da Escola Secundária Diogo de Macedo
Prosseguem as comemorações dos 25 anos desta escola gaiense, que no passado dia 16 de Fevereiro organizou um jantar/conferência solidário em que falou o Prof. Doutor Eduardo Vitor Rodrigues, sociólogo e presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, que dissertou sobre os desafios do presente entre o determinismo e o darwinismo social e as perspetivas para as gerações futuras.

Palestras, cursos, congressos e outros eventos
Caminhos de Andarilho
No passado dia 1 de fevereiro, no Centro Cultural e Desportivo dos Trabalhadores da Câmara Municipal do Porto teve início um ciclo de palestras coordenadas por Arnaldo Trindade intitulado Caminhos de Andarilho, desta feita sobre “José Afonso - o Homem”, a qual teve como convidados Jaime Milheiro, João Afonso e Ana Almeida Santos.


Genealogia e História da Família
Nos próximos dias 16 e 17 de março decorrerá no Solar Condes de Resende uma formação sobre Genealogia e História da Família - descubra os seus octavós, com a orientação do Prof. Doutor Francisco Queiroz, autor de numerosos trabalhos sobre estas matérias que interessam a um público cada vez mais vasto.
Destinado ao público em geral, ao cidadão comum, é igualmente interessante para professores e estudantes de Ciências Históricas, Antropologia Cultural e Física e Ciências Biomédicas, por motivos bem conhecidos de todos. Esta ação, organizada pelo Gabinete de História, Arqueologia e Património da associação Amigos do Solar Condes de Resende – Confraria Queirosiana.

Exposições

In Tempore Sueborum, Ourense
           

No passado dia 1 de fevereiro, uma delegação da Confraria Queirosiana formada por J. A. Gonçalves Guimarães, António Bernardo, César Oliveira e Licínio Santos estiveram presentes no 19º Salão Internacional de Turismo Gastronómico em Ourense, Galiza onde compareceram representações de 12 países de vários continentes e confrarias de Espanha e Portugal, além da Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas. No dia seguinte os dois historiadores presentes visitaram a exposição In Tempore Sueborum patente ao público no Centro Cultural “Marcos Valcárcel”, na igreja de Santa Maria Nai e no Museu Municipal de Ourense, apresentando jóias e peças arqueológicas dos Suevos e do seu tempo provenientes de dez países europeus, entre as quais quadro depositadas no Solar Condes de Resende, três do Castelo de Gaia e uma do Castelo de Crestuma, provenientes de escavações arqueológicas realizadas pelo Gabinete de História, Arqueologia e Património da Confraria Queirosiana. Na sequência desta visita, J. A. Gonçalves Guimarães realizou uma palestra no Solar Condes de Resende no passado dia 22 de Fevereiro intitulada «Portucale entre Suevos e Visigodos», onde abordou a destruição de Portucale Castrum Antiquum (Gaia) pelos visigodos em 585.

Esculturas de António Pinto
No passado dia 17 de Fevereiro na Biblioteca Pública Municipal de Gaia abriu ao público uma exposição de esculturas de António Pinto e de pinturas de Luísa Prior, intitulada “O Meu Olhar”. Tendo sido monitor em diversas ações de formação em Portugal e no estrangeiro onde a pedra é a matéria-prima, António Pinto expõe habitualmente no Salon d’Automne Queirosiano no Solar Condes de Resende. Nesta sua primeira exposição individual apresenta vários rostos e figuras femininas em mármore, granito e xisto.

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Eça & Outras, III.ª série, n.º 111 – domingo, 25 de fevereiro de 2018; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; colaboração Ricardo Haddad e Susana Moncóvio.




quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Eça & Outras

O haxixe na vida de Eça e de outras pessoas.

O haxixe é um estupefaciente proveniente das flores fêmeas da Cannabis sativa, variedade indica, também conhecido como marijuana ou outras denominações. Fuma-se, bebe-se e come-se. Durante a sua viagem com o conde de Resende ao Egito em 1869, Eça de Queirós, então com vinte e quatro anos, experimentou no Cairo o haschich e partilhou a descrição dos seus efeitos com os amigos em Lisboa, para quem aliás ambos trouxeram aquela substância em geleia, bolos e pastilhas para fumar. Dir-se-ia que tal era então uma moda entre a intelectualidade europeia, cansada que estava dos champagnes, dos charutos, dos absintos. O café ia então num crescendo. Nem Eça ficou viciado e se alguma vez ficou drogado, tal deveu-se, não tanto ao haxixe, mas aos medicamentos que, mais tarde, passou regularmente a tomar e a variar, conforme as prescrições médicas que procuravam acertar nos seus padecimentos intestinais e combatê-los, com raro sucesso ou alívio, como é sabido. Durante as dores, os crescimentos que de quando em vez o acometiam de forma insuportável, deve ter muitas vezes suspirado pelo haxixe cairota, mas creio que então este não chegava facilmente a Lisboa. Se tivesse a cannabis ali à mão, plantada no quintal, sempre poderia ter passado melhor com as suas enfermidades. Mas no Portugal de então, além do chá de tília, pouco mais havia na velha farmacopeia para aliviar as suas dores e sofrimento. Mas também não podemos agora emendar a História e o que passou, passou.
Presentemente tem-se discutido na Assembleia da República a legalização do consumo da cannabis para fins terapêuticos e não recreativos, como eles dizem, criando assim mais um muro artificial e inútil, desta vez semântico, entre o divertimento e a terapia, como se tal fosse possível. Uma boa parte da Humanidade e os pensantes de todas as épocas terão concluído que tal não o é. Ao fim e ao cabo todas as eficientes terapias para todas as nossas doenças e enfermidades, que outro objetivo terão senão pôr-nos aptos para o exercício normal da vida, o qual inclui por certo o recreio, a diversão, a convivialidade? Para que quereremos a “saúde”, ou a ausência de doenças e enfermidades, senão para viver a vida o melhor possível? Haverá alguns que ainda pensarão que o vida é, ou deve ser, fardo e sofrimento, mas suponho que os psicanalistas já os terão catalogado e, muito humanamente, proposto algumas terapias para esses infelizes, quiçá à base da atualmente discutidíssima cannabis, que para eles já tarda. Porque da auto-flagelação, ou da auto-justificação, à perseguição do bem-estar, ou pelo menos, do sossego dos outros que não estão para aí virados, vai apenas uma pequena distância de oportunidade. E todos sabemos, pelo menos pela História, o que tal significa.
            Desde tempos muito remotos que a humanidade descobriu que algumas plantas e seus derivados tinham propriedades alucinógenas, isto é, capazes de pôr os que as consumiam a ver e a sentir o banal em maior e diferente escala, ou até a ver, sentir, cheirar e usufruir daquilo que só a imaginação cria e que nunca foi real. Poderíamos aqui invocar o consumo habitual do “pão do diabo” por Jerónimo Bosch, um pão de centeio com cravagem, o LSD natural, que o levou a pintar aquelas maravilhosas alucinações que hoje os grandes museus exibem com orgulho e as leiloeiras invejam. Supomos que as polícias já o deixaram em paz e que a justiça não o quer levar a tribunal por consumo de drogas, até porque ele já morreu em 1516. Dos derivados de plantas usados para fins recreativos, ou seja, não necessários à alimentação nem à saúde, atualmente ainda se consomem legalmente quatro, embora dois deles muito perseguidos pela legislação e por um puritanismo exacerbado: referimo-nos ao vinho, uma bebida preparada a partir de uvas da Vitis vinifera fermentadas, com cerca de 11 a 13º de álcool por 100 ml, completamente perseguida em algumas sociedades pela sua capacidade de dar alegria às pessoas; o tabaco, as folhas secas da planta Nicotiana tabacum, por inalação do fumo da sua combustão, perdidos que estão no Ocidente os hábitos de o mascar e snifar (rapé); o café, uma infusão dos grãos torrados da Coffea arabica e outras plantas afins, tomado como estimulante. Por fim o cacaueiro, a Theobroma cacao, sob a forma de chocolate. Depois existem um sem número de sucedâneos de bebidas a partir de outras plantas, como a cerveja, de inalações de derivados de outras plantas, como o sagrado incenso, e de estimulantes orgânicos, como a Camellia sinensis (chá) e outras centenas ou milhares de infusões. A partir do século XIX, após a síntese química das moléculas ativas e da sua replicação artificial, o número de produtos terapêuticos e de estimulantes tornou-se exponencial e nem sempre controlado pela indústria farmacêutica, que muitas vezes vende a substância base, mas já não controla as suas combinações. Mas para os seus efeitos terá sempre um antídoto legal, de modo que o lucro está sempre garantido em todo o processo, se não à partida, de certeza à chegada, quanto mais não seja pago pelo Estado, que em última instância tem de tratar do intoxicado. E tudo isto por quê? Porque, antes de mais, de um modo geral, é bom, sabe bem, dá alguns momentos de felicidade real ou imaginária, resolve os problemas físicos e psíquicos no imediato, mesmo depois do consumidor ter abusado por excesso. A psicose de infringir a lei vigente, a ordem, o status, sempre foi um dos motores da História, que dá a sensação de se ter um pouco mais do paraíso proibido na Terra. Ora, paralelamente à descoberta das plantas estupefacientes, ou simplesmente estimulantes, também ocorreu a tentativa de apropriação dos seus paraísos pelas religiões e pelos sistemas de governação, para o darem em exclusivo aos seus crentes, aos seus fiéis, sob forma controlada e com pagamento de retorno assegurado. Ainda estamos nesse estádio e é isso que andam a fingir que discutem alguns dos nossos deputados, esquecendo que hoje somos todos, ou quase todos, drogados por drogas legais que nos mantêm a qualidade de vida.
            Refletindo sobre o mundo e os seus achaques, e tropeçando nas humanas atitudes, quer individuais quer coletivas, muitos dos escritores e outros artistas do passado e do presente conheceram diversos estupefacientes e experimentaram-nos ou consumiram-nos, como foi o caso de Eça de Queirós. Se é certo que uma boa parte das suas personagens ainda se embebeda, charuteia ou fuma cigarro, e bebe café, do seu consumo de haxixe, comprovado por, entre outros, Jaime Batalha Reis, não ficou memória literária direta. E se de tal poderá ter sucumbiu o seu companheiro de viagem, o conde de Resende, tal não poderemos afirmar, sendo certo que morreu novo e com “visões místicas” (MONCÓVIO, 2016: 25).
            Tirando o vinho, o tabaco, o café e o chocolate que consumimos são importados. Muitas das drogas legais em Portugal (fármacos e não só) são importadas. Quase todas as drogas ilegais em Portugal, à excepção da cannabis, são importadas. O controlo policial e social destas últimas falhou e continuará a falhar. Convém pois reequacionar este assunto a partir de dados humanitários e do bom senso. Está provado que não se combatem as drogas proibindo-as ou criminalizando os seus consumidores, deixando que os fornecedores se substituam em cadeia, e nas cadeias. E se os drogados são doentes, o que só será verdade a partir da evidência de efeitos nefastos e da irreversibilidade da dependência, então tratemo-los com a dignidade que nos merecem todos os outros dependentes de drogas, fármacos ou estupefacientes. Entre o consumidor compulsivo de cannabis cultivada no seu quintal e o de fármacos legais da farmácia da esquina, que venha o diabo e que escolha. Eu sei em quem voto.
            Declaração de interesses: o autor deste artigo consome moderadamente vinho, café, cacau e medicamentos legais. Não fuma, embora na juventude tenha teimado porque era proibido no liceu, sem o conseguir. É também uma prova de que a propensão para o uso imoderado do tabaco não é hereditária. Nunca consumiu cannabis ou qualquer outra droga ilegal, embora as tenha tido disponíveis no tempo da tropa em Moçambique, não por “ser melhor do que os outros”, mas porque, entre outros motivos, ter tido sempre necessidade de se manter vigilante face ao status quo circundante, e por, apesar de tudo o que tem passado, não estar descontente com a vida, não precisar de “refúgios” para além da realidade, nem querer “dar o flanco ao inimigo”, seja lá ele qual for. Conhece os sete prazeres da vida e esses lhe bastam. Tem tomado alguns fármacos legais por prescrição médica, alguns dos quais o ajudaram a superar um problema de saúde grave. Acredita na eficiência da Medicina, mas sabe que a vida não existe por receita médica, filosófica ou policial. Se a questão se pudesse pôr, nunca colaboraria em qualquer perseguição a Eça de Queirós e seus amigos por terem consumido haxixe nem, se fosse deputado, participaria nos dias de hoje na elaboração de leis obsoletas ou inúteis contra tal consumo. Deixaria a sua profilaxia para programas de educação e de reinserção social mais eficazes, concretos e humanos. Se pudesse, a todos convidaria para tentarem viver num mundo onde não se consumissem drogas dispensáveis, nem onde estas alimentam uma boa parte da economia paralela, onde ombreiam com os tráficos de armas e de pessoas.
Já li o romance A Coca de J. Rentes de Carvalho e gostei da abordagem do autor. Creio que, para além do seu grande valor como obra literária, ajuda a perceber o fenómeno entre nós.

J. A. Gonçalves Guimarães
Mesário-mor da Confraria

Livros e revistas

Revista de Portugal
            A Revista de Portugal n. º 14, publicada no passado dia 25 de novembro, encontra-se digitalizada e disponível em wwwqueirosiana.pt a partir de hoje. Embora a sua publicação habitual vá continuar a ser feita em papel, é intenção da direção disponibilizar todos os números já publicados neste sítio.

            Encontra-se em distribuição o n.º 85 do Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia referente ao mês de dezembro de 2017, com artigos de, entre outros, GUIMARÃES, J. A. Gonçalves – Biografias de Mafamudenses ilustres; MONCÓVIO, Susana – Adelaide Lucinda Fontes (1871-1951) e Emília Ernestina da Silva (1869-1952): a formação artística das senhoras Teixeira Lopes; e OLIVEIRA, Nuno Gomes – Viveiros da Quinta da Telheira, Santo Ovídio. A biodiversidade perdida.

Palestras, cursos, congressos e outros eventos
Francisco Ribeiro da Silva e o Foral de 1518
Comemorações do Foral de Gaia de 1518
            No passado dia 19 de Janeiro tiveram início as comemorações oficiais dos 500 anos do Foral manuelino de Vila Nova de Gaia com uma sessão solene no Arquivo Municipal presidida pelo Prof. Doutor Eduardo Vitor Rodrigues, presidente da câmara, ladeado pelos vereadores Eng.ª Paula Carvalhal e Dr. Manuel Monteiro. Foi orador o Professor Doutor Francisco Ribeiro da Silva, ex-professor catedrático da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que dissertou sobre o conteúdo do documento no contexto da reforma manuelina. A sessão foi abrilhantada com a atuação de um grupo de guitarra clássica do Conservatório de Música de Gaia que tocou peças da época. Seguiu-se a abertura de uma exposição evocativa, a qual tinha como ponto central o original do Foral, bem assim como outros objetos da época ou a ela alusivos. Entre muitas das individualidades presentes encontrava-se D. Henrique de Cernache, conde de Campo Bello, descendente dos antigos senhores de Gaia-a-Grande e de Álvaro Anes e de Diogo Leite referidos neste documento régio.
            As comemorações prosseguirão com um exposição de Artes Plásticas inspiradas no Foral, organizada pela associação Artistas de Gaia e que abrirá no dia 24 de março, e pela realização de um cortejo cívico que terminará com uma recriação histórica e pelo lançamento da edição fac-similada do Foral, no próximo dia 30 de junho.

25 anos da Escola Diogo de Macedo
            Com um vasto programa de vinte e cinco eventos apresentado por Manuel Filipe de Sousa, iniciaram-se no passado dia 19 de janeiro com um Concerto de Abertura pelo Conservatório de Música do Porto realizado na Igreja de Crestuma, Vila Nova de Gaia, completamente cheia, as comemorações dos 25 anos da AEDMO – Agrupamento de Escolas Diogo de Macedo. Os estantes eventos, que incluem exposições, conferências e edição do jornal Face ao Douro, decorrerão ao longo do ano com a colaboração de diversas personalidades e instituições.

Últimas Quintas do Mês
Noje, no Solar Condes de Resende, prosseguindo o programa das palestras das últimas quintas-feiras do mês, pelas 21,30 horas, J. A. Gonçalves Guimarães falará sob o tema «Toponímia gaiense: introdução ao seu estudo» em que abordará, entre outros, os topónimos do Foral quinhentista. No próximo mês de fevereiro, dia 22, no mesmo local e à mesma hora o mesmo investigador falará sobre «Portucale entre suevos e visigodos».

Curso de Património Cultural de Gaia
             Prossegue no próximo sábado no Solar Condes de Resende o curso sobre o Património Cultural de Gaia, com uma aula sobre o Património Institucional pelo Prof. Francisco Barbosa da Costa. Em fevereiro dia 3 será a vez do Professor Doutor Gonçalo de Vasconcelos e Sousa sobre Património Humano – Personalidades e no dia 17 sobre Património Edificado pelo Prof. Doutor Nuno Resende.

Depósitos e doações
            Pelo Dr. Marcus Vinícius Cocentino Fernandes, médico radiologista, foram entregues à Confraria Queirosiana mais 20 livros e uma fotografia do espólio da Dr.ª Júlia Cunha, a juntar aos 89 itens já doados desta discípula dileta de Teófilo Braga, o qual tem vindo a ser estudado pelo Prof. Doutor José António Martin Moreno Afonso da Universidade do Minho, contando já com um primeiro artigo intitulado «Memórias dos anos de formação de uma professora portuense na década de 1920» apresentado no Congresso Internacional “O Tempo dos Professores”, que decorreu no Porto entre 28 e 30 de setembro de 2017, organizado pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto.
S. Gonçalo, séc. XVIII; propriedade da Associação Os Mareantes do Rio Douro.

A propósito da romaria de S. Gonçalo que decorreu em Gaia no passado dia 14 de janeiro, a Associação Os Mareantes do Rio Douro depositou no Solar Condes de Resende, para estar exposta, uma imagem do século XVIII daquele taumaturgo amarantino medieval que antigamente era usada no seu cortejo votivo até à igreja de Mafamude, a qual, entretanto foi substituída por uma outra mais recente.
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Eça & Outras, III.ª série, n.º 110 – quinta-feira, 25 de janeiro de 2018; propriedade dos Amigos do Solar Condes de Resende - Confraria Queirosiana; C.te. n.º 506285685; NIB: 0018000055365059001540; IBAN: PT50001800005536505900154; email: queirosiana@gmail.com; www.queirosiana.pt; confrariaqueirosiana.blospot.com; eca-e-outras.blogspot.com; vinhosdeeca.blogspot.com; coordenação da página: J. A. Gonçalves Guimarães (TE-638); redação: Fátima Teixeira; inserção: Amélia Cabral; fotografia: Carlos Sousa e Susana Guimarães.